Sobre a Reforma Protestante e a necessidade de uma Nova Reforma

Ecclesia reformata et semper reformanda est 
(A Igreja Reformada está sempre se Reformando)

Alguns anos atrás, 500 para ser mais exato, tivemos o início do movimento que mais tarde ficou conhecido pelo nome de Reforma Protestante. Diante de uma crise moral e doutrinária que a Igreja estava passando, o monge agostiniano, Martinho Lutero, resolveu se posicionar a respeito dessa situação. Lutero, assim como aqueles que vieram depois dele, como Zwinglio, Melancton, Calvino, Armínio e outros, foram responsáveis por estruturar e propagar esses ensinos: mas que ensinos foram esses? Os Reformadores entenderam que deveríamos voltar as fontes e parar de inventar novas respostas para antigos problemas. Já temos a suficiência das Escrituras e a sabedoria da Tradição para auxiliar-nos com esses problemas. Agora, cabe a nós trazermos essas respostas para a nossa época e para o nosso contexto. Cabe aos cristãos de cada época, com ajuda daqueles que vieram antes deles, serem luz do mundo e sal da terra. Mas por que isso não acontece? Por que os cristãos hoje em dia não são como Policarpo de Esmirna, ou como Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santa Tereza D’ávila, Duns Scott, Martinho Lutero, João Calvino, Dietrich Bonheffer, C. S. Lewis, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Francis Schaeffer? Por que a voz cristã não é mais relevante? O que houve de errado?

Acredito que o que deu errado, foi que levamos a Reforma ao pé da letra. Para ser mais exato, levamos o Sola Scriptura ao pé da letra: as Escrituras não são mais a base da nossa fé, ela se tornaram também as paredes e o teto. Aquilo que antes deveria trazer vida, está trazendo uma morte lenta para a Igreja. A suficiência das Escrituras não significa que ela deve dar uma resposta definitiva para todas as questões da vida. As Escrituras são o ponto de partida e nossa âncora para todas as questões. As Escrituras nos dão o ponto de partida para todas as questões: Kuyper, Calvino, Dooyeewerd, Santo Agostinho, São José Maria Escrivá, Santo Tomás de Aquino e tantos outros tiveram as Escrituras como base do que falaram pois entenderam que é dela que temos a perfeita revelação do Verbo encarnado, da verdade e da vontade divina. A Bíblia Sagrada é aquela que traz vida pois ela é a suficiente revelação de Cristo, o autor e consumador da nossa fé.

Qual a diferença de todos os cristãos que vieram antes de nós e dos cristãos de 20, 30 anos pra cá? Por que viramos motivo de chacota e não mais um referencial onde passamos? Nossa história está cheia de mártires que morreram em prol da Verdade, cheia de pessoas que foram relevantes para o Reino de Deus e para a sociedade a sua volta. Foram cristãos os maiores cientistas, filósofos, políticos, artistas, etc, mas por que isso mudou? Por que abraçamos um conservadorismo burro! Não somos mais conservadores como foram aqueles Santos e Santas que vieram antes de nós, não! Somos, no pior sentido da palavra, meros progressistas que querem encontrar a Verdade sozinhos, ainda que ela já esteja suficientemente revelada nas Escrituras e em grande parte já tenha sido satisfatoriamente interpretada por grande parte da Igreja do passado (1). Vivemos discutindo se existe ou não predestinação, se a salvação se perde ou não, se batismo se faz por imersão ou aspersão, se Deus criou ou não o mal e diversas outras questões que já foram satisfatoriamente respondidas pelas Escrituras e pela Tradição da Igreja. Estamos procurando respostas que já nos foram dadas ou respondendo perguntas que ninguém fez e isso devido ao mal uso de um dos Solas da Reforma, o já mencionado Sola Scriptura. Nos prendemos de tal forma às Escrituras, que nos achamos no direito de reinterpretá-la, nem que seja para chegarmos as mesmas conclusões que os antigos chegaram.

Somente as Escrituras são nossa fonte de fé e prática, diziam os Reformadores e essa é uma máxima ao qual eu concordo e abraço. Contudo, como bem observaram teólogos como Kevin Vanhoozer, Peter Leithart, Alister MacGrath(2) e outros, qual interpretação das Escrituras é a correta? Como andaremos em consonância com a Igreja que nos antecedeu e fez o Evangelho chegar até nós? Simples: voltemos as raízes da Reforma! Voltemos à Tradição, voltemos aos Evangelhos, voltemos às Escrituras! Contudo, uma questão permanece: como responderemos aos novos dilemas da sociedade? Como daremos uma resposta cristã a respeito de questões que as Escrituras não se preocuparam a falar explicitamente, como política, educação, sexualidade e as novas filosofias? Como já disse, as Escrituras nos fornecem a base de toda a nossa vida e é a partir dela que devemos responder, mas reconhecendo os limites que o próprio Deus impôs a ela. A Bíblia não é um livro científico para tirarmos conclusões científicas dela, nem um livro de sociologia, filosofia ou política. A Bíblia é um livro que contém a revelação suficiente do Deus trino, criador do céu e da terra, sustentador da história e consumador da mesma, ela conta a história do relacionamento de Deus com o homem e de como o homem pode e deve se aproximar novamente dEle.

Enquanto continuarmos com essa mentalidade progressista de uma fé que permite renovações, continuaremos a ser a chacota da sociedade. Enquanto não voltarmos para as raízes da nossa fé, assim como fizeram os Reformadores, continuaremos a ser “representados” por figuras como Feliciano, Malafaia e outras figuras públicas que tem se levantado em nome de uma massa evangélica burra. Enquanto não tivermos fixos os pilares da nossa fé e enquanto não estivermos em consonância com a Igreja de todas as épocas e lugares, não estaremos prontos para fornecer respostas verdadeiramente bíblicas e cristãs para a sociedade. Enquanto não entendemos o caráter sinfônico da Verdade e do corpo de Cristo(3), não seremos relevantes.

Precisamos de uma nova Reforma, mas não com ideias novas: precisamos de uma nova Reforma com abordagens novas. Devemos fazer como fizeram os Reformadores e termos as Escrituras como firme fundamento da nossa fé, mas nunca tentar torcê-la para que ela responda perguntas que ela não se preocupa em responder. Devemos conhecer nossa cultura o suficiente para sabermos responder biblicamente a todos os problemas que ela enfrenta. Que sejamos cristãos relevantes, assim como foram João Calvino, Abraham Kuyper, Francis Schaeffer, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Dietrich Bonhoeffer e todos os outros membros do corpo do Cristo ressurreto espalhados pela terra.

Soli Deo Gloria

NOTAS:

(1) Embora entenda que as Escrituras já tenham sido, em grande parte, satisfatoriamente interpretadas pela Tradição Cristã, isso não significa que eu acredite que devemos nos prender completamente a Tradição como se está fosse infalível, mas que devemos tê-la como apoio no que é e sempre foi consenso em toda a cristandade. Em questões secundárias, não vejo problema a divergência se não houverem disputas.

(2) Caso haja curiosidade de aprofundamento no assunto, recomendo a leitura dos seguintes livros: Biblical Authority after Babel: retrieveing the solas in the spirit of mere protestant christianity, Was the Reformation a Mistake?: why catholic doctrine is not unbiblical e O Drama da Doutrina de Kevin Vanhoozer; A Gênese da Doutrina e Christianity’s Dangerous Idea: the protestant revolution de Alister McGrath; The End of Protestantism: pursuing unity in a fragmented church de Peter Lithart.

(3) Ao me referir a um caráter sinfônico da Verdade, não estou me referindo a um pensamento relativista ou a algum ecumenismo burro, mas ao pensamento do teólogo Hans Urs von Balthasar, principalmente em seu livro A Verdade é Sinfônica: aspectos do pluralismo cristão. Caso exista um interesse no aprofundamento da ideia, recomendo também a leitura do livro organizado por Pedro Dulci, Igreja Sinfônica: um chamado radical pela unidade dos cristãos, pois traz essas ideias para o contexto das Igrejas Brasileiras.

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Sobre Amizade e solidão intelectual

“Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão. Porque na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.”

Eclesiastes 1:17, 18

Talvez este não seja um tema que agrade a todos. Talvez nem todos se identifiquem. Talvez eu esteja falando sozinho, mas o importante é que ainda posso falar, por isso, continuarei falando. Desde que comecei a me interessar pelos estudos, descobri duas coisas: a primeira era de que estava diante de um mundo muito maior do que aquele que eu conhecia e que haviam me apresentado; a segunda, é que eu já havia perdido tempo demais e não conseguiria conhecer tudo o que gostaria. Mas isso não foi o suficiente para me desanimar. No começo, me contentei em ler obras contemporâneas de literatura, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia e até algumas mais antigas como Alice no País das Maravilhas. Com o tempo, fui percebendo que todos esses autores falavam algo a mais do que simplesmente contar um história: foi quando comecei a me aventurar pela filosofia, mas ainda estava conhecendo. Comecei com o Mundo de Sofia, depois fui para um introdução a filosofia para o ensino médio, até que cai em Dostoiévisk, Os Diários do Subsolo. Confesso que foi uma leitura difícil no começo, mas aos poucos, conforme fui me acostumando, fui também me apaixonando. Mas logo parei essas leituras para ler sobre política, depois sobre sociologia, depois teologia, depois antropologia, para então voltar para literatura e continuar esse ciclo que cada vez mais aumentava.

Aquilo que começou com Harry Potter, foi terminar com T. S. Eliot e Tolkien, que por sua vez puxaram Chesterton, que puxou Santo Tomás de Aquino, que puxou Santo Agostinho, Aristóteles, Platão, e toda um infinidade de pessoas. Muitos se tornaram apenas conhecidos, outros eu não desejo ver nunca mais. Alguns não se afastam de jeito nenhum, outros se tornaram amigos distantes, outros companheiros de jornada. Conhecer aquilo que já conheceram, fazer parte de um grupo de pessoas que ultrapassava as barreiras do tempo, tornou-se um paixão. Contudo, perceber que dentre os vivos que me rodeavam, eu estava só, era um tanto desconfortante.

Quando conheci Victor Hugo, minha vontade era de apresenta-lo para aqueles que me rodeavam, mas o máximo que consegui foram alguns minutos de desconforto. Quando me deparei com René Girard, Campbell, Tolkien, Chesterton, minha primeira reação foi estampar um grande sorriso no rosto e gritar para todos o que havia descoberto! Mas quando percebi que o que eu falava soava como um estrangeiro falando um língua desconhecida, a alegria cessou.

Quando você descobre uma paixão e não pode compartilha-la com alguém que sente o mesmo, você percebe que está sozinho, mesmo estando rodeado de pessoas. Ainda que essas pessoas te amem e esse amor seja reciproco, a sensação de solidão se torna tão real e tão palpável quanto esse amor.

A amizade do antigos é reconfortante, mas não traz a alegria da presença. Ainda que muitos consigam se fazer presentes, ainda que presos em tempos antigos, a necessidade do contato humano ainda se sobressai ao ânimo de conhecer.

Salomão percebeu isso, muitos e muitos anos atrás. Conhecer, é perceber coisas que não perceberia se desconhecesse. A sabedoria dos antigos supera a prepotência da nossa pseudo-inteligência…

Um filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, em uma de suas aulas, aconselhou um de seus alunos a abandonar seus amigos que não o acompanhavam intelectualmente. Eu teria tudo para concordar com o professor, mas não consigo limitar amizade a simples companhia intelectual. Por mais que eu acredite piamente que esta seja importante, não creio que seja suficiente. A amizade vai além do estimulo intelectual, mas tem haver com relacionamento. Por mais que C. S. Lewis possa me consolar em meio a um possível luto, ele não pode me oferecer um abraço e uma conversa sincera. Ainda que Santo Agostinho possa me ajudar com crises espirituais, ele não pode ouvir meus problemas e orar comigo. Mesmo que Platão responda muitas das minhas dúvidas, ele não pode entender os problemas que as geraram. Os mortos estão mortos, portanto, limitados.

Se o professor Olavo de Carvalho estivesse certo, a realidade seria tão angustiante quanto sugeriam os existencialistas e niilistas. Se amizade se limitasse a companhia intelectual, então a felicidade seria algo pequeno demais para ser um anseio tão grande do ser humano. Mais do que um boa conversa sobre política, teologia ou filosofia, amizade é poder rir sem problemas com alguém a quem você ame. Amizade é poder chorar e poder se alegrar, independente se a pessoa saberá definir em termos filosóficos e teológicos o que é alegria ou não. Sei que seria maravilhoso alguém que além de acompanhar intelectualmente, também fosse um verdadeiro amigo, mas então como cresceríamos? Se somos apaixonados pelo conhecimento, devemos então ansiar pelo confronto, para que exista crescimento. Isso causara mais dor e trará mais solidão? Sim, mas ao mesmo tempo trará uma alegria que você não encontrará nunca em livros e em pensamentos abstratos. No final das contas, todo o pensamento se volta para o relacionamento entre as pessoas. No final de tudo, ainda devemos amar o próximo como a nós mesmo.

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A história de um homem bêbado e a história da nossa hipocrisia

Era uma quarta-feira normal. Já era noite e eu estava voltando da faculdade. Havia passado o dia por lá fazendo as pesquisas, assim como planejado. Quando estava no meio do caminho da volta para casa, sobe um homem no ônibus. Tinha por volta dos quarenta anos de idade e estava nitidamente bêbado. Ele entrou no ônibus, cumprimentou o motorista, cumprimentou todos no ônibus, um por um, mas não passou a catraca, cumprimentou apenas de longe, até que finalmente, quando se cansa de ninguém dar atenção para ele, se senta no banco preferencial. Como já é de praste da maioria dos bêbados, ele começou a contar diversas histórias e quase todas eram completamente desconexas entre si. Mas uma delas me chamou a atenção.

“Ele veio e me pediu ajuda. A mãe dele estava descontando os problemas nele, o pai havia saído de casa a mais ou menos uma semana a namorada o havia deixado. Ele veio me pedir ajuda e eu ajudei. Eu disse o que qualquer pastor diria: ‘confia em Jesus e não transa antes do casamento que vai dar tudo certo, porque se Jesus voltar e você estiver pecando, você fica.’ Qualquer pastor diria isso. Eu tentei ajudar ele e eu realmente achei que tinha ajudado. Mas dai, umas semanas depois, eu recebo a mensagem de que a ajuda não tinha adiantado muita coisa: o desgraçado se matou! Como ele pode se matar? Eu falei pra ele o que tinha que falar: “obedeça, não peque!” O que mais eu tinha que dizer? Eu era só um pastor, não um psicólogo ou um teólogo ou qualquer outro ‘ólogo’ da vida.”

O ônibus deu uma parada um tanto brusca, devido a uma criança no meio da rua. Todos no ônibus se manifestaram. O bêbado ficou calado. Após o ônibus voltar a andar, todos se calaram novamente e o homem voltou a falar.

“Sabe, agora eu não sou mais pastor, então eu não preciso mais me preocupar em mentir pros outros. Se eu ainda fosse pastor, iam me encher o saco só porque eu bebi um pouquinho.”

Algumas pessoas no ônibus riram quando ele disse: um pouquinho. Ele parou de falar, com um ar de quem não havia aprovado as risadas, mas logo deu de ombros e voltou a contar sua história.

“Mas já que eu não sou, então não tem problema. Ah, como me divirto com esses puritaninhos! Querem fugir do inferno, mas pra isso transformam a vida dos outros em inferno. Tem problemas com bebida? Só falar que beber é pecado que você se safa! Tem problema com sexo? Só falar que quem transa vai pro inferno que você se safa! Tem problema com cigarro? Simples, fala que é passaporte pro inferno. Já é fácil saber o que eles vão falar, eles nem precisam abrir a boca. Todo mundo fala que é santo, mas na verdade é santarrão. Cara lavada e mão encardida. Ninguém nunca explica porque as coisas são erradas, simplesmente repetem como robôs o que ouviram de androides”

Ao ouvir esse homem desabafando, eu não soube o que fazer. Ele nitidamente estava machucado. Eu conhecia a cura, mas eu neguei ajuda. Por que eu neguei ajuda…? Como seria a vida dele se nenhum dos problemas dele tivessem acontecido? Ele voltou a falar, mas agora, sua voz estava tremula, como quem está prestes a chorar.

“Eu fiz tudo o que me mandaram, exatamente da forma como me disseram para fazer. Eu tentei ajudar!”

Nesse momento, ele da um grito que faz com que um clima de tensão se instale no ônibus. Depois de alguns segundos quieto, ele volta a falar.

“Se vocês soubessem o que sinto, não ficariam ai apenas me ouvindo falar e fingindo que não estou aqui. EU EXISTO, embora muitos de vocês ajam como se fosse o contrário. Sabe porque eu não mudo? Porque eu não quero! Faço por que quero, e sofro porque sou preso as minhas vontades. Eu não quero mais ficar aqui! Eu não quero mais! Eu queria ter a coragem que aquele rapaz teve, queria poder arrancar minha vida e acabar com essa culpa, mas minha covardia não deixa. Ao menos, ela não me abandonou…”

Ao terminar de falar, ele levantou uma garrafinha de plástico com um liquido transparente. Ele olhava aquela garrafa com tanta paixão e ao mesmo tempo com tanta tristeza… Depois disso, ele se levantou, andou até o motorista e disse: “Seu ‘moto’, meu ponto é o próximo, mas acho que to sem dinh…” O homem logo foi interrompido pelo motorista que parou bruscamente a mais ou menos 7 metros do ponto e disse: “Desce logo e não me enche o saco. Da próxima você vai descer no ponto final.”

Assim que o homem saiu, o clima de tensão que predominava o ônibus saiu junto. Todos voltaram suas atenções à seus celulares. Alguns comentaram com as pessoas ao lado sobre o acontecimento, mas nada que durasse mais de 30 segundo. No final, todos voltavam para os seus celulares. Eu não fui completamente diferente, embora não tenha conseguido permanecer no celular. Fiquei pensando o porque de todos agirmos dessa forma: estávamos diante de um ser humano com problemas e o abandonamos. O que nos leva a sermos tão apáticos com um aparente alcoólatra e sermos transfigurações divinas diante de crianças de rua quando estamos participando de algum projeto social ? Isso quando participamos de algum projeto.

Entenda, não estou querendo dar um sermão sobre como não nos envolvemos socialmente. Eu seria um hipócrita se fizesse isso. O que estou fazendo é simplesmente transmitindo o que aquele homem me passou: desconforto. Esse homem me gerou desconforto não por ele mesmo, mas gerou um desconforto em mim. As críticas que faço sobre a sociedade e tudo o mais, estão explicitas como um exemplo vivo em mim. O bem que eu quero, esse eu não faço.

Se um dia eu reencontrar este homem – isso se eu me lembrar do rosto dele -, eu gostaria de fazer diferente, mas infelizmente, não sei se eu faria. Eu descobri que me tornei aquilo que abomino, e isso me torna pior do que um homem que se afoga na bebida.

Deus tenha piedade de nós…

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Repara, observa, agradece.

Eu vivi no meio de tudo
Cresci no meio de todos
Mas não sei nada

Eu convivi com uma porção de gente
Viajei por muitos lugares
mas não conheci nada

De que adiantam olhos que só vem mas não enxergam?
Visão cega
Não vê nada além da matéria
Vida estéril

Cai, levanta e vê
Não só vê, enxerga
Não só enxerga, repara
Não só repara, mas agradece…

O completo sentido da luz resplandece
Diante da escuridão
Não contrapõe, mas expõe.
Sei que é o que é, porque é mais do que o oposto
É exposto,
Sustenta a matéria
É o criador que sustenta a ideia

Ele só repara a visão do cego
Quando o cego repara que não vê

Antes via só matéria
Hoje vê o que ninguém mais vê

Repara, agradece.

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Sobre a relação do Sola Fide com a Tradição Cristã

No dia 31 de outubro desse ano (2016), comemoramos 499 anos da Reforma Protestante, um movimento que aconteceu dentro da Igreja Católica Romana, que identificava alguns pontos da doutrina Católica que não condiziam com os ensinamentos bíblicos. A partir da Reforma, foram elaborados o que hoje conhecemos como os 5 Solas, que seria o entendimento da salvação somente por Cristo (Solus Christus), através da Graça (Sola Gratia) mediante a fé (Sola Fide), por intermédio das Escrituras (Sola Scriptura), resultando em toda a Glória entregue a Deus (Soli Deo Gloria). Neste texto, procurarei refletir um pouco sobre um desses pontos, o Sola Fide, e tentar mostrar como o entendimento errado deste ponto, gerou uma distorção dos outros pontos.

sola-fide
Segundo a doutrina Católica, a única interprete fiel das Escrituras é a Igreja, ou seja, toda a linha de interpretação dos fiéis deve estar de acordo com a interpretação da Igreja, fazendo com que a fé fosse vivida de forma coletiva e não individual, pois assim, os cristãos de todas as épocas leriam as Escrituras da mesma forma, pelo menos teoricamente. Já para os Protestantes, a interpretação fiel das Escrituras pode ser alcançada somente pelo indivíduo e pelo seu relacionamento com o Espirito Santo de Deus, mas por algum motivo, nós, protestantes, temos a terrível mania de pensar que a doutrina Católica quanto a interpretação das Escrituras, excluí a doutrina Protestante, quando na verdade, este pensamento esta errado.

Somente a Fé, mas que fé? Fazemos parte do corpo de Cristo, e este não nasceu a 500 anos atrás, mas sim no Pentecostes, quando o Espírito Santo de Deus unificou o seu povo, a sua Igreja. Sendo assim, o que estas pessoas pensavam sobre a fé? Por que não nos preocupamos em conhecer o que a nossa tradição disse a respeito da nossa fé? Hoje em dia, transformamos a fé em um objeto pessoal. Um mero produto onde nos apegamos e moldamos segundo a nossa própria imagem e semelhança, quando na verdade, biblicamente podemos observar que a fé é algo coletivo. Somos salvos individualmente para vivermos coletivamente. Cristo morreu por mim exclusivamente para que nós, enquanto Igreja, pudéssemos adorar aquele que nos salvou.

Eu, enquanto um Cristão Protestante, não sigo a fé de João Calvino, Martinho Lutero, Santo Tomás de Aquino ou de Santo Agostinho. Não sigo a fé da Igreja Católica, da Igreja Presbiteriana, da Igreja Luterana ou de qualquer outra denominação cristã. Eu sigo a fé de Abraão, Isaque e Jacó; a fé de Davi, Salomão e Jeremias; a fé de São Paulo, São Pedro e São Mateus. A fé Cristã, é por essência Católica, no sentido original da palavra de ser uma fé “universal”, ou seja, uma única fé. Aqueles que professam crer no Cristianismo, aderem a fé antiga de uma Igreja de mais de dois mil anos que remonta ao antigos País e Profetas do Judaísmo até os Apóstolos do Novo Testamento, a Patrística, à Escolástica, à Reforma Protestante e aos mais diversos movimentos religiosos dentro do Cristianismo. Mas afinal, o que une todas essas pessoas? O solo comum.

Confessam ser cristãos, aqueles que creem em um só Deus distinto em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; aqueles que creem em um só batismo feito em nome dessa mesma Trindade Divina; creem na encarnação do Verbo de Deus e na sua divindade assim como na sua humanidade, sem aumentar e nem diminuir qualquer uma das duas, entendendo-as como iguais; creem que a salvação é graça de Deus e que o homem devido a sua natureza, não tem a capacidade de salvar a si mesmo, a não ser pelo sacrifício do Filho de Deus. Os cristãos são aqueles que confessam a Didaqué, o Credo Apostólico, o Credo Niceno, o Credo Niceno-Constantinopolitano, o Credo Atanasiano e os mais diversos documentos e credos da Igrejas Cristã. Estamos ligados pelo solo comum a Santo Anselmo, Santo Inácio de Loyola, Santa Tereza D’Avila, João Calvino, Jacobus Arminius, Martinho Lutero, Maximiliano Kolbe, Dietritch Bonhoeffer, Karl Barth, e muitos outros cristãos das mais diferentes denominações que não caberiam neste texto, por nem sabermos o nome de muitos deles.

Diferente do que muitos possam pensar, não estou defendendo um ecumenismo cego e unicista, mas sim um relacionamento real da Igreja do Senhor, do Corpo Vivo do Cristo Ressurreto. Estou defendendo que por mais que existam diferenças entre as mais diversas tradições cristãs, e acredito que essas diferenças existirão até o dia da volta do Nosso Senhor, ainda existem pontos essenciais da nossa fé onde todos estamos firmados. Existem pontos inegociáveis da fé cristã que nos caracterizam como tais.

Nossa história é marcada por divisões, e isso não ira mudar agora. Mas podemos caminhar juntos, ainda que tenhamos algumas diferenças. Como disse C. S. Lewis, o Cristianismo é como uma casa e as denominações cristãs, são os cômodos da casa. O que caracteriza a casa como uma moradia, como um lar, não é somente a convivência de todos que lá estão, mas o solo no qual esta casa está firmada. Somente com um solo comum muito bem estabelecido, seria possível que a fé cristã perdurasse por mais de dois mil anos.

“Somente a Fé”, clamam os Protestantes. “Somente a Igreja”, clamam os Católicos. “Somente Cristo”, clamam os cristãos. Somos unidos por uma única fé, uma única Igreja e um único Cristo.

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Sobre a criação dos homens da mitologia Tolkieniana

Obs: este texto faz parte de uma pesquisa maior, já apresentada parcialmente aqui com o nome de Tolkien e a Teodiceia de O Silmarillion, que será concluída no final de 2016.

 

Aqui, observaremos alguns trechos onde J. R. R. Tolkien narra alguns detalhes sobre a criação dos homens, para assim, estabelecer alguns diálogos entre os homens da Sub-criação de Tolkien e os homens no mito cristão.

O autor mostra, no capítulo Do início dos tempos, que os homens foram criados finitos, ou seja, eles foram feitos com um começo e um fim. Tolkien elabora rapidamente a ideia de a morte ser algo presente desde o início e, por tanto, seria algo bom, ou como o próprio Tolkien narra, um dom dado aos homens por Ilúvatar. Contudo, esse dom foi corrompido por Melkor, que fez com que os homens entendessem a morte como algo ruim*:

A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. [1]

Também se pode observar que Ilúvatar da aos homens algo a mais que os próprios elfos ou Ainur. Na narrativa, observa-se que será através dos homens que a criação se completará:

Ele, assim, determinou que os corações dos homens sempre buscassem algo fora do mundo e que nele não encontrassem descanso; mas que tivessem capacidade de moldar sua vida, em meio aos poderes e aos acasos do mundo, fora do alcance da Música dos Ainur, que é como que o destino de todas as outras coisas; e por meio da sua atuação tudo deveria, em forma e de fato, ser completado; e o mundo seria concluído até o último e mais ínfimo detalhe. [2]

Ao dizer que é a partir de uma determinação do próprio deus que os homens passam a buscar algo fora do mundo, ou fora do tempo, Tolkien faz uma clara referência ao versículo 3 de Eclesiastes, no versículo 11, onde diz que a eternidade foi colocada por Deus no coração do homem, dessa forma, embora o homem não compreenda completamente a deus, ele passa a buscar sentido para os diversos acontecimentos de sua vida. Quanto a isso, é possível fazer uma referência ao Apóstolo São Paulo em sua carta à Igreja de Filipos, onde ele mostra que o sentido da vida reside em estar satisfeito em Deus e confiante que ele proverá o necessário, como também está escrito no Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 6, do versículo 30 ao 34. Mais a frente, ao falar a respeito do dom da morte dado aos homens, o autor volta a falar dessa questão da finitude humana, estabelecendo um diálogo com a carta aos Hebreus, no capítulo 11, versículos 12 a 14, onde o autor diz que todos os testemunhos de fé mencionados anteriormente no texto bíblico só foram possíveis, pois estes eram como o próprio texto diz, estrangeiros e peregrinos sobre esta terra:

Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. [3]

Em seguida, o autor ressalta a presciência de Ilúvatar ao mostrar seu conhecimento a respeito das consequências da existência dos homens em meio aos diversos acontecimentos, ou, como o mesmo diz, o torvelinho dos poderes do mundo, e que isso, por fim, resultaria em glória para sua obra. Pode-se igualmente observar que a revelação que os homens têm, é uma revelação progressiva, pois o entendimento da criação só será completo em um tempo vindouro, quando os mesmos completarem a criação através de suas escolhas.

:

Ilúvatar sabia, porém, que os homens, colocados em meio ao torvelinho dos poderes do mundo, se afastariam com frequência do caminho e não usariam seus dons em harmonia; e disse: – Esses também, no seu tempo, descobrirão que tudo o que fazem resulta no final em glória para minha obra. [4]

Aqui, podemos observar um diálogo com a ideia de livre arbítrio de Santo Agostinho, onde através das escolhas livres dos homens a criação será da forma que foi planejada, ou seja, as escolhas livres dos homens estão de acordo com a vontade de Deus e não há nada que possa fugir dos planos dele, como vemos no primeiro capítulo de O Silmarillion, e também no livro de Jó, no capítulo 42, versículo 2. Voltando rapidamente para o Ainulindalë, podemos ver novamente a questão do livre arbítrio dos homens, contudo, vemos também pela primeira vez a ideia de imagem e semelhança apresentada em Gênesis:

Portanto, quando os Ainur os contemplaram, mais ainda os amaram, por serem os Filhos de Ilúvatar diferentes deles mesmos, estranhos e livres; por neles verem a mente de Ilúvatar refletida, a qual, não fosse por eles, teria permanecido oculta até mesmo para os Ainur. [5]

Ao mostrar que os homens, diferente dos Ainur, possuem o reflexo da mente de Ilúvatar, além de um diálogo com o Gênesis, como já citado, pode-se estabelecer aqui um diálogo com a Teologia Paulina, na primeira carta a Igreja de Corinto, no capítulo 13, no versículo 12, onde o Apóstolo se utiliza da figura de um espelho para estabelecer a ideia dos homens serem parciais e limitados, mas que caminham para uma existência plena junto com Deus. Da mesma forma, Tolkien reflete essa ideia em O Silmarillion, como podemos ver na história de Aulë, onde o autor narra o seguinte: “(…) a vontade de fazer coisas está em meu coração porque eu mesmo fui feito por ti.”; também em seu ensaio Sobre Histórias de Fadas, onde o mesmo elabora a ideia de sermos criadores por termos sido criados, e, por tanto, somos reflexos de um criador maior.

Os homens não só conceberam elfos, mas imaginaram deuses, e os cultuaram, e cultuaram até aqueles mais deformados pelo mal de seu próprio autor. Mas fizeram falsos deuses a partir de outros materiais: suas opiniões, seus estandartes, seus dinheiros; até suas ciências e suas teorias sociais e econômicas demandaram sacrifício humano. Abusus non tollit usum. A Fantasia continua sendo um direito humano: fazemos em nossa medida e a nosso modo derivativo, porque somos feitos, e não apenas feitos, mas feitos à imagem e semelhança de um Criador. [6]

Estes homens, semelhante à doutrina bíblica da Queda, também se corromperam e se desviaram do caminho inicialmente traçado para eles, como está narrado no Akallabêth:

[…] a Morte não se afastou da Terra. Pelo contrário, passou a vir mais cedo, com maior frequência e com muitas roupagens terríveis. Pois, enquanto no passado os homens envelheciam lentamente e se deitavam no final para dormir, quando finalmente se wallup.netcansavam do mundo, agora a loucura e a doença os acometiam. E mesmo assim eles sentiam medo de morrer e entrar no escuro, o reino do senhor que haviam escolhido; e se amaldiçoavam em sua agonia. E os homens se armavam naquela época e se matavam uns aos outros por motivos insignificantes; pois se haviam tornado

irritadiços, e Sauron, ou aqueles que ele recrutara para si, percorria a Terra, instigando um homem contra o outro, de modo que o povo murmurava contra o Rei e os senhores, ou contra qualquer um que tivesse algo que ele não possuíssem. E os homens dotados de poder se vingavam com crueldade. [7]

Por fim, embora existam diferenças entre os homens da mitologia cristã e da mitologia tolkieniana, as semelhanças existentes são suficientes para que se estabeleça o diálogo desejado. Assim como entende a teologia cristã, os homens da sub-criação de Tolkien apresentam uma história governada por um deus com aspectos semelhantes ao Deus cristão; apresentam a capacidade de escolha, ou seja, são agentes morais livres; são seres criados bons e com um propósito inicial, mas devido a escolhas erradas, se tornaram “caídos” e corrompidos, assim como afirma a teologia cristã.

Notas:

* Quanto a isso, Tolkien em uma carta para Peter Hastings, em setembro de 1954, que: “(…) os Homens são essencialmente mortais e não devem tentar tornar-se ‘imortais’ na carne.” . Em uma nota de rodapé nesta mesma carta, o autor acrescenta que: “Visto que a ‘mortalidade’ é assim representada como uma dádiva especial de Deus à Segunda Raça dos Filhos (os Eruhíni, os Filhos do Deus Único) e não como uma punição por uma Queda (…).”

Referências:

1. TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015, p. 36-7.

2. Ibdem, p. 36.

3. Idem.

4. Idem.

5. Ibdem, p. 7.

6. TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 54.

7. TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015, p. 348-9

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Sobre o Cristo sofredor e o Cristo triunfante

Recentemente em uma aula a que estava assistindo, após algumas perguntas um pouco fora de contexto, fomos parar em um assunto que me interessa bastante: o sofrimento. Um colega fez um comentário a respeito de como a Igreja anda lidando com o sofrimento hoje em dia em comparação com a forma que a Igreja antigamente lidava com ele e terminou com uma pergunta: “O que levou a essa situação?” Foi nesse momento em que a ideia para escrever esse texto surgiu. Um colega, ao ouvir essa pergunta, mais do que depressa respondeu: “Foi o triunfalismo que levou a Igreja para essa situação!” Sem nenhum problema com essa afirmação, eu concordei. Como todos ali, imagino eu, entendi que ele se referia ao triunfalismo teológico que penetrou algumas Igrejas atuais, mudando completamente o foco do evangelho, fazendo com que alguns cristãos, entendessem que quem sofre está longe de Deus. Mas para a minha surpresa – e de muitos presentes -, ele não estava pensando nisso.

De forma imponente e quase com um ar revolucionário ele estufou o peito e disse com toda a segurança: “A Igreja está do jeito que está, pois se apegou ao triunfalismo da ressurreição e se esqueceu do sofrimento da cruz! Devemos adorar e nos lembrar do Deus que morreu!” Nesse momento eu me arrumei em minha cadeira, respirei fundo e esperei ele terminar seu pensamento. Mas não melhorou muito. Basicamente, o que ele disse foi uma distorção da Teologia da Cruz de Martinho Lutero e da Teologia da Esperança de Jürgen Molltmann ncom uma pitada de pessimismo da pior espécie: “Devemos pregar mais o Jesus que morreu e sofreu e menos o Jesus triunfante!”

Como já disse, eu tenho um interesse gigante pelo problema do sofrimento, pois entendo que essa é uma questão que  rodeia toda a existência humana e  acredito também ser um problema em que teólogos e filósofos devem sim, se debruçar, não para encontrar uma resposta definitiva, mas para fornecer uma esperança concreta para as pessoas. Contudo, dizer que devemos nos focar no Deus morto na cruz e não no Deus triunfante do terceiro dia, acredito ser uma afirmação tenebrosa e absurdamente triste para um cristão, sem pensar no fato de ser extremamente ilógico excluir a consequência sem excluir a causa que à gerou. Por isso, achei que seria interessante escrever este texto como resposta, e é o que vou fazer.

Creio no Deus pai todo poderoso, mas creio também no Verbo encarnado e no Espírito que unificou a Igreja no Pentecostes. Como cristão, creio em um Deus trino, mas curiosamente, minha crença me diz que esse Deus, diferente de todas as outras religiões que já passaram pela face da terra, ao se fazer carne, esvaziou-se e tornou-se criação sem deixar sua divindade. Portanto, quando fui confrontado com a fala do meu colega, isso foi um chute nas bases da minha crença – graças a Deus, Ele fortificou bem sua casa.

Creio que o homem sofrendo na cruz era Deus. Creio, assim como Wolterstorff, Moltmann e Lutero, em um Deus sofredor, pois acredito que o sofrimento é inerente a um ser que ama. Creio, assim como Lewis, que o amor e o sofrimento são de certa forma inseparáveis, portanto, creio que Deus é amor e por isso sofre. Crer em um Deus que é o próprio amor é crer em um Deus que é, de certa forma, o próprio sofrimento. Sei que essa é uma afirmação difícil, mas no decorrer deste texto tentarei deixar minha opinião mais clara e assim, talvez eu deixe alguns mais tranquilos e outros mais escandalizados, contudo, sei que todos entenderão o que penso, concordando ou não.

Creio fielmente no Cristo ressurreto, por tanto, creio também no Cristo morto. O Cristo que ressuscitou, esteve morto por três dias e por três dias os homens perderam sua esperança. De forma nenhuma acredito no Deus fraco de Bultman, pois o Deus em que creio, é aquele que depois de três dias morto, surpreendeu São Tomé, o Incrédulo, que só acreditou porque viu, contudo, como já disse o Mestre: “Bem-aventurado aqueles que creram e não viram.” São Tomé, seria, a meu ver, a melhor ilustração para mostrar que o que meu colega propôs esta errado, pois ele entendeu perfeitamente, no momento da paixão, que não faz sentido adorar um Deus morto muito menos pregar um Deus assim, mas faz completo sentido, adorar um Deus triunfante. Contudo, excluir um é necessariamente excluir o outro, pois é necessário que algo caia para que enfim triunfe. Jesus-CruzNão é possível acreditarmos apenas em um Deus que ressuscitou ou apenas em um Deus que morreu, pois creio que esse é o erro do Cristianismo atual que pega apenas as partes que agradam das Escrituras e acha que está tudo bem. Se aceito um Deus que salva, devo aceitar o Deus que condena; se aceito um Deus bom, devo, portanto, aceitar que ele não é mal; se aceito um Deus que ressuscita, devo aceitar um Deus que morre. Da mesma forma, devemos aceitar os paradoxos que o Cristianismo nos apresenta. Se aceito um Deus que criou todas as cosias, devo aceitar também que ele não criou o mal; se aceito que Cristo é Deus, devo igualmente aceitar que ele também é homem. O Cristianismo, ao mesmo tempo em que nos apresenta uma linha lógica muito clara, também nos apresenta muitos problemas que somente pela fé podem ser aceitos. Acreditar que, como disse Wolterstorff, o homem sangrando na cruz era o Deus redentor, é um deles.

Não creio em um Deus morto, mas creio que meu Deus se sujeitou a morte e se humilhou por amor. Ele sofreu a morte que ninguém desejaria sofrer, pois foi ele o único bode-expiatório  verdadeiro que Girard identificou entre a grande maioria do mitos ao redor do mundo. O Verbo vivo que criou todas as coisas através dele mesmo sujeitou-se a humilhação de ser assim como suas criaturas, para assim, responder a famosa pergunta de Jó: “Por acaso tens olhos de carne, e vês como o homem vê?” (10:4) Entendo eu, que a resposta perfeita para o problema de Jó, como já disse em um texto antigo, foi dada por Deus na cruz. “Você sofre como eu sofro?” Perguntou Jó a Deus. Então, com a maior demonstração de amor, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Meu colega afirmou que devemos nos voltar para o Cristo morto. Eu diria que devemos nos lembrar do Cristo morto, pois é lá que enxergamos o sofrimento de Deus, e é lá que podemos ver seu amor. Mas é na ressurreição que reside a nossa esperança e não na cruz. Parafraseando Tolkien, a cruz foi a catástrofe da humanidade e a ressurreição nossa esperança. Para que uma história seja verdadeiramente boa, ela deve ter aquele momento máximo de sacrifício do herói, o momento onde sua respiração é suspensa por alguns instantes, onde tudo está nebuloso e você não sabe dizer ao certo o que acontecerá em seguida. Até que enfim, a esperança nasce novamente e o herói nos é, finalmente, apresentado como tal. Sozinho, esse instante de suspense em uma história não é algo bom, na verdade, ela mostra apenas a ruína do herói, contudo, quando vemos toda a história, entendemos que o herói só é verdadeiramente o herói da história, graças a esse momento sombrio, porque sem ele, o herói seria apenas um simples personagem, talvez com algo a mais do que os outros personagens, mas nunca um herói de fato. Da mesma forma, Cristo só é o servo sofredor de Isaías 53 e a promessa de Gênesis 3, porque ele também é o jardineiro de João 20:15 e a figura misteriosa que atravessa as portas ainda fechadas desejando a paz em João 20:19. Ele é a nossa esperança porque ele ressuscitou e não porque ele morreu. Se Cristo tivesse morrido e nada mais, como já disso São Paulo, seria vã a nossa fé. Mas é justamente porque ele ressuscitou que a nossa fé não é vã.

A Igreja se esqueceu do sofrimento, porque ela se apegou a ressurreição, e nesse ponto eu concordo com o meu colega. Mas só resolveremos esse problema, quando o evangelho for pregado com fidelidade, expondo desde sua alegria e esperança até a sua catástrofe. Preguem a criação, a queda e a redenção! Preguem a encarnação, a morte e a ressurreição! Preguem a Cristo, mas não tentem impedi-lo de ressuscitar, pois assim como Aslan, Ele não é domesticado para fazerem dEle o que quiserem.

“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.”

 

1 Conríntios 1:22, 24.

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