Sobre a noite em que Deus dormiu e o Deus crucificado

A noite em que Deus dormiu, é um termo usado para se referir as catástrofes e situações que causam sofrimento ao homem, para assim concluir que Deus está a parte de todo esse sofrimento vivido pela humanidade, ou seja, Deus está dormindo.

Quero que esse texto seja acima de tudo, uma exposição pessoal de minhas dúvidas e das possíveis respostas para as minhas próprias dúvidas. Como já expus aqui em outros textos, acredito que as dúvidas dos outros podem trazer respostas para nossas próprias dúvidas. E o que mais me intriga sobre a questão da existência de Deus, é o fato de, pelo menos aparentemente, ele não interferir moralmente nas escolhas ruins da humanidade, em especial, daqueles que foram salvos por Ele. Eu realmente não entendo o porque de muitas vezes, acontecer tantas catástrofes e calamidades com aqueles que supostamente são os Filhos de Deus. As vezes, até mesmo o sofrimento daqueles que não crêem em Cristo, não faz muito sentido para mim. Entendo que pela cosmovisão cristã, os que não estão em Cristo, já estão condenados e que o que eles sofrem, nada mais é do que o resultado de suas ações. Mas o problema, pelo menos ao meus ver, é que muitas dessas pessoas nunca ouviram falar sobre Cristo e mesmo assim sofrem. Alguns que já ouviram falar, mas vivem sua vida, até certo ponto, de forma moralmente correta, também sofrem. Porque Deus não interfere nessas ações morais do homem que afetam outras pessoas causando-as dor e sofrimento?

Tenho grande admiração pelo filósofo Nicholas Wolterstorff, e o mesmo, em seu livro, Lamento, enfrenta essa questão do sofrimento de uma maneira muito bonita e em nenhum momento chega a duvidar da bondade ou da soberania de Deus. Mas particularmente, eu me identifico mais com C. S. Lewis em, Anatomia de uma Dor, nesse caso. Lewis levanta questões extremamente desconcertantes e muitas vezes pesadas demais, mas ainda assim, creio que são essas questões que fortalecem nossa fé.

Evidentemente, é bem fácil afirmar que Deus parece ausente em nossas maiores necessidades, porque Ele está ausente – não existente. No entanto por que Ele parece tão presente quando, para dizer com franqueza, não solicitamos sua presença? [1]

Para os cristãos, Deus é um Deus que intervém na história, nós cremos em um Deus ativo. Mas o que me levanta diversas dúvidas, é o porque Deus parece intervir somente nas horas boas e some nas horas ruins? Porque vemos Deus presente tão claramente quando algo de bom nos acontece, mas o vemos tão distante quando o sofrimento bate a nossa porta? Gosto bastante da definição que Chicó, personagem de Ariano Suassuna na peça Auto da Compadecida, faz a respeito da morte e acho que será bastante útil para o que irei falar mais a frente.

Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre. [2]

Chicó, mesmo sendo uma personagem extremamente cômica, faz comentários igualmente profundos. Nesse caso, está lamentando a morte de seu amigo, João Grilo, que acaba de ser morto por um cangaceiro. É interessante ver Chicó colocando a morte como a marca do nosso destino sobre a terra e como o fato sem explicação. A dúvida que cerca a morte é algo que ao mesmo tempo que é curioso, é aterrorizante. Afinal, o que é a morte? É o fim de tudo, como afirmam os materialistas? É apenas o começo, como afirmam os cristãos? O que é essa senhora que acompanha todos os seres vivos, e sem aviso prévio os leva para um lugar ainda desconhecido? E nessas horas, onde está Deus para consolar aqueles que continuarão a esperar sua hora de abraçar a morte? Onde se encontra Deus, quando os vivos sofrem?

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Wolterstorff nos apresenta em seu livro, Lamento, um Deus sofredor que está sofrendo pelo homem. Um Deus que sofre junto com o homem, um Deus que se compadece do sofrimento de sua criação, ao ponto de se fazer homem e sofrer por ela e com ela. Ou como afirma a Teologia da Cruz de Martinho Lutero, o Deus que está oculto no sofrimento.

Deus é amor. É por isso que ele sofre. Amar nosso mundo sofrido e pecador é sofrer. Deus sofreu tanto pelo mundo que deu seu único Filho para sofrer. Quem não percebe o sofrimento de Deus não percebe o seu amor, pois Ele é o amor que sofre. [3]

Reconheço que a afirmação de Wolterstorff é um tanto pesada, mas eu honestamente, não consigo não acreditar nela, pois entendo também que Deus sofre por nós e conosco. Assim como disse C. S. Lewis, amar é ser vulnerável [4]. O amor causa a aquele que ama, em determinado momento, o sofrimento. Pois amar é despir-se de todas as suas armaduras, amar é deixar-se ser conhecido. O teólogo alemão, Jürgen Moltmann, em seu livro The Crucified God, chega as mesmas conclusões de Wolterstorff e enxerga uma necessidade em entender o sofrimento de Deus.

Um Deus que não pode sofrer é mais pobre do que qualquer ser humano. Pois um Deus que é incapaz de sofrer é um ser que não se envolve de forma relacional. O sofrimento e a injustiça não o afetam. E pelo fato dele ser tão absolutamente insensível, nada pode afetá-lo o abalá-lo. Ele não pode chorar, pois não possui lágrimas. Contudo, quem é incapaz de sofrer também é incapaz de amar. Assim, ele é também um ser destituído de amor. [5]

Ao meu ver, a única forma de responder minimamente aos meus questionamentos, é a Teologia da Cruz, ou a Teologia do Sofrimento, como gosto de referir-me a ela. A ideia de que Deus está conosco em nosso sofrimento, traz uma luz a dúvida do porque Ele parece tão ausente em nosso sofrimento. Ele não está ausente, como afirmou Lewis, o problema é que em meio a todo o sofrimento e as dúvidas e as lágrimas que muitas vezes o acompanham, não conseguimos enxergá-lo.

Em meio a esse problema da aparente omissão moral de Deus e sua aparente ausência no sofrimento, encontramos uma possível resposta na Teologia do Sofrimento, mas com isso, encontramos outro problema já reconhecido pelos pensadores acima citados e igualmente respondido, a medida do possível, claro. O problema de um Deus que sofre. Por que Deus se permite tal sofrimento? Por que ele se permite se humilhar na encarnação, sofrer e morrer? O filósofo francês, René Girard, nos apresenta uma resposta bastante interessante, a ideia do Bode Expiatório. Girard explica, que o homem está destinado ao que ele chama de “rivalidade mimética”. Para Girard, o homem é um ser mimético, ou seja, um ser que imita os desejos de seus semelhantes próximos e o desejo mais reproduzido pelo homem é o desejo de vingança, que segundo Girard, foi a primeira invenção humana. O homem é um ser vingativo pois a vingança se relaciona com as paixões do homem e por tanto, com seus amores.

É interessante observar que Girard identifica que esse desejo mimético do homem, referindo-se a vingança, levaria o homem uma hora ou outra a auto-destruição, mas curiosamente não levou. Por que? Para que o homem não se exterminasse, era necessário que ele transmitisse toda a sua vingança para um ser inocente e com isso quebrasse o ciclo de sacrifícios de bodes expiatórios cometidos por diversas sociedades. Durante toda a história e na literatura também, identificamos que para que cessasse uma calamidade, vítimas sacrificiais eram entregues como bode expiatórios dos erros de pessoas específicas ou de um povo. Girard nos mostrá que em Cristo, esse ciclo de vingança teve um fim.

O que as pessoas não viam e que, no entanto, é de uma simplicidade desconcertante, é a diferença fundamental que há entre os mitos e os Evangelhos. Nos mitos, a vítima é sempre culpada, enquanto que na Bíblia, e em particular no cristianismo, a mesma vítima é inocente. (…) Graças à Paixão, Cristo quer que os homens reconheçam o seu papel de criadores de vítimas, de perseguidores. É por proclamar as regras do Reino e renunciar totalmente à violência sacrificial, que o próprio Cristo é sacrificado. (…) “É necessário que um só homem morra e que o povo seja salvo”. Isso quer dizer que Cristo é o bode expiatório? Certamente: ele próprio aceita tornar-se esse bode expiatório e mostrar-nos o que nós todos fazemos. [6]

Ou seja, Cristo veio para a terra, para assim, como homem, mostrar ao homem o que ele era capaz de fazer. Cristo sofreu no lugar do homem para que o homem não destruísse a si mesmo. O sofrimento de Deus, em Cristo, pois um fim ao fim do homem. Embora tudo isso traga uma resposta até certo ponto bastante satisfatória, para mim pelo menos, reconheço que ela não é uma resposta definitiva. Pelo contrário, ela é mais uma tentativa do homem de responder uma dúvida atormentadora, do que uma resposta propriamente dita.

O ideia do Deus que sofre, traz um conforto para essas dúvidas e nos faz enxergar e entender esse Deus relacional em que cremos. Mas no final das contas, mesmo tendo muitas questões sem respostas satisfatórias, vejo que no sofrimento, encontramos respostas que não procurávamos para perguntas que muitas vezes nos atormentam.

Tu te compadeceste da terra e do pó, e quiseste reformar minhas deformidades. Com um aguilhão secreto provocavas em mim a inquietude, para que eu me mantivesse insatisfeito, até que te tornasses uma certeza ao meu olhar interior. Meu tumor diminuía ao contato misterioso de tua mão benfazeja. A vista perturbada e obscurecida de minha inteligência melhorava dia a dia, graças ao colírio de dores curativas. [7]

Nossas feridas, quando abertas, nos causam dor e sofrimento de formas diferentes e muitas vezes indescritíveis, mas ainda assim, quando elas cicatrizam e passam a fazer parte de nós podemos perceber o que nos tornamos ao sofre-las. Pois, assim como está escrito no livro de Jó:

É Deus quem fere e cura a ferida, quem golpeia e cura com sua própria mão. [8]

Em todos os momentos, louvemos o nome do Senhor, ainda que nada nos motive a fazer isso.

Referências: 

[1] LEWIS, C. S. Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação. São Paulo: Ed. Vida, 2013, pág. 34.

[2] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Ed. Livraria AGIR, 1980, pág. 134.

[3] WOLTERSTORFF, Nicholas. Lamento: A Fé em meio ao Sofrimento e à Morte. Minas Gerais: Ed. Ultimato, 2007, pág. 90.

[4] LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. São Paulo: Ed. WMF Martins Fontes, 2013, pág. 168.

[5] MOLTMANN, Jürgen. The Crucified God. London: SCM Press, 1974, pág. 222 in: MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Ed. Shedd Publicações, 2014, pág. 329.

[6] GOUNELLE, André; HOUZIAUX, Alain; GIRARD, René. Deus: Uma Invenção? São Paulo: É Realização Editora, 2011, pág. 72-3.

[7] AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Ed. Paulus, 2013, pág. 186.

[8] Jó 5:18

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Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
Esse post foi publicado em C. S. Lewis, Literatura e Teologia, René Girard, Teologia Filosófica. Bookmark o link permanente.

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