Sobre o Cristo sofredor e o Cristo triunfante

Recentemente em uma aula a que estava assistindo, após algumas perguntas um pouco fora de contexto, fomos parar em um assunto que me interessa bastante: o sofrimento. Um colega fez um comentário a respeito de como a Igreja anda lidando com o sofrimento hoje em dia em comparação com a forma que a Igreja antigamente lidava com ele e terminou com uma pergunta: “O que levou a essa situação?” Foi nesse momento em que a ideia para escrever esse texto surgiu. Um colega, ao ouvir essa pergunta, mais do que depressa respondeu: “Foi o triunfalismo que levou a Igreja para essa situação!” Sem nenhum problema com essa afirmação, eu concordei. Como todos ali, imagino eu, entendi que ele se referia ao triunfalismo teológico que penetrou algumas Igrejas atuais, mudando completamente o foco do evangelho, fazendo com que alguns cristãos, entendessem que quem sofre está longe de Deus. Mas para a minha surpresa – e de muitos presentes -, ele não estava pensando nisso.

De forma imponente e quase com um ar revolucionário ele estufou o peito e disse com toda a segurança: “A Igreja está do jeito que está, pois se apegou ao triunfalismo da ressurreição e se esqueceu do sofrimento da cruz! Devemos adorar e nos lembrar do Deus que morreu!” Nesse momento eu me arrumei em minha cadeira, respirei fundo e esperei ele terminar seu pensamento. Mas não melhorou muito. Basicamente, o que ele disse foi uma distorção da Teologia da Cruz de Martinho Lutero e da Teologia da Esperança de Jürgen Molltmann ncom uma pitada de pessimismo da pior espécie: “Devemos pregar mais o Jesus que morreu e sofreu e menos o Jesus triunfante!”

Como já disse, eu tenho um interesse gigante pelo problema do sofrimento, pois entendo que essa é uma questão que  rodeia toda a existência humana e  acredito também ser um problema em que teólogos e filósofos devem sim, se debruçar, não para encontrar uma resposta definitiva, mas para fornecer uma esperança concreta para as pessoas. Contudo, dizer que devemos nos focar no Deus morto na cruz e não no Deus triunfante do terceiro dia, acredito ser uma afirmação tenebrosa e absurdamente triste para um cristão, sem pensar no fato de ser extremamente ilógico excluir a consequência sem excluir a causa que à gerou. Por isso, achei que seria interessante escrever este texto como resposta, e é o que vou fazer.

Creio no Deus pai todo poderoso, mas creio também no Verbo encarnado e no Espírito que unificou a Igreja no Pentecostes. Como cristão, creio em um Deus trino, mas curiosamente, minha crença me diz que esse Deus, diferente de todas as outras religiões que já passaram pela face da terra, ao se fazer carne, esvaziou-se e tornou-se criação sem deixar sua divindade. Portanto, quando fui confrontado com a fala do meu colega, isso foi um chute nas bases da minha crença – graças a Deus, Ele fortificou bem sua casa.

Creio que o homem sofrendo na cruz era Deus. Creio, assim como Wolterstorff, Moltmann e Lutero, em um Deus sofredor, pois acredito que o sofrimento é inerente a um ser que ama. Creio, assim como Lewis, que o amor e o sofrimento são de certa forma inseparáveis, portanto, creio que Deus é amor e por isso sofre. Crer em um Deus que é o próprio amor é crer em um Deus que é, de certa forma, o próprio sofrimento. Sei que essa é uma afirmação difícil, mas no decorrer deste texto tentarei deixar minha opinião mais clara e assim, talvez eu deixe alguns mais tranquilos e outros mais escandalizados, contudo, sei que todos entenderão o que penso, concordando ou não.

Creio fielmente no Cristo ressurreto, por tanto, creio também no Cristo morto. O Cristo que ressuscitou, esteve morto por três dias e por três dias os homens perderam sua esperança. De forma nenhuma acredito no Deus fraco de Bultman, pois o Deus em que creio, é aquele que depois de três dias morto, surpreendeu São Tomé, o Incrédulo, que só acreditou porque viu, contudo, como já disse o Mestre: “Bem-aventurado aqueles que creram e não viram.” São Tomé, seria, a meu ver, a melhor ilustração para mostrar que o que meu colega propôs esta errado, pois ele entendeu perfeitamente, no momento da paixão, que não faz sentido adorar um Deus morto muito menos pregar um Deus assim, mas faz completo sentido, adorar um Deus triunfante. Contudo, excluir um é necessariamente excluir o outro, pois é necessário que algo caia para que enfim triunfe. Jesus-CruzNão é possível acreditarmos apenas em um Deus que ressuscitou ou apenas em um Deus que morreu, pois creio que esse é o erro do Cristianismo atual que pega apenas as partes que agradam das Escrituras e acha que está tudo bem. Se aceito um Deus que salva, devo aceitar o Deus que condena; se aceito um Deus bom, devo, portanto, aceitar que ele não é mal; se aceito um Deus que ressuscita, devo aceitar um Deus que morre. Da mesma forma, devemos aceitar os paradoxos que o Cristianismo nos apresenta. Se aceito um Deus que criou todas as cosias, devo aceitar também que ele não criou o mal; se aceito que Cristo é Deus, devo igualmente aceitar que ele também é homem. O Cristianismo, ao mesmo tempo em que nos apresenta uma linha lógica muito clara, também nos apresenta muitos problemas que somente pela fé podem ser aceitos. Acreditar que, como disse Wolterstorff, o homem sangrando na cruz era o Deus redentor, é um deles.

Não creio em um Deus morto, mas creio que meu Deus se sujeitou a morte e se humilhou por amor. Ele sofreu a morte que ninguém desejaria sofrer, pois foi ele o único bode-expiatório  verdadeiro que Girard identificou entre a grande maioria do mitos ao redor do mundo. O Verbo vivo que criou todas as coisas através dele mesmo sujeitou-se a humilhação de ser assim como suas criaturas, para assim, responder a famosa pergunta de Jó: “Por acaso tens olhos de carne, e vês como o homem vê?” (10:4) Entendo eu, que a resposta perfeita para o problema de Jó, como já disse em um texto antigo, foi dada por Deus na cruz. “Você sofre como eu sofro?” Perguntou Jó a Deus. Então, com a maior demonstração de amor, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Meu colega afirmou que devemos nos voltar para o Cristo morto. Eu diria que devemos nos lembrar do Cristo morto, pois é lá que enxergamos o sofrimento de Deus, e é lá que podemos ver seu amor. Mas é na ressurreição que reside a nossa esperança e não na cruz. Parafraseando Tolkien, a cruz foi a catástrofe da humanidade e a ressurreição nossa esperança. Para que uma história seja verdadeiramente boa, ela deve ter aquele momento máximo de sacrifício do herói, o momento onde sua respiração é suspensa por alguns instantes, onde tudo está nebuloso e você não sabe dizer ao certo o que acontecerá em seguida. Até que enfim, a esperança nasce novamente e o herói nos é, finalmente, apresentado como tal. Sozinho, esse instante de suspense em uma história não é algo bom, na verdade, ela mostra apenas a ruína do herói, contudo, quando vemos toda a história, entendemos que o herói só é verdadeiramente o herói da história, graças a esse momento sombrio, porque sem ele, o herói seria apenas um simples personagem, talvez com algo a mais do que os outros personagens, mas nunca um herói de fato. Da mesma forma, Cristo só é o servo sofredor de Isaías 53 e a promessa de Gênesis 3, porque ele também é o jardineiro de João 20:15 e a figura misteriosa que atravessa as portas ainda fechadas desejando a paz em João 20:19. Ele é a nossa esperança porque ele ressuscitou e não porque ele morreu. Se Cristo tivesse morrido e nada mais, como já disso São Paulo, seria vã a nossa fé. Mas é justamente porque ele ressuscitou que a nossa fé não é vã.

A Igreja se esqueceu do sofrimento, porque ela se apegou a ressurreição, e nesse ponto eu concordo com o meu colega. Mas só resolveremos esse problema, quando o evangelho for pregado com fidelidade, expondo desde sua alegria e esperança até a sua catástrofe. Preguem a criação, a queda e a redenção! Preguem a encarnação, a morte e a ressurreição! Preguem a Cristo, mas não tentem impedi-lo de ressuscitar, pois assim como Aslan, Ele não é domesticado para fazerem dEle o que quiserem.

“Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.”

 

1 Conríntios 1:22, 24.

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Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
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Uma resposta para Sobre o Cristo sofredor e o Cristo triunfante

  1. Spadaccini disse:

    “Eu diria que devemos nos lembrar do Cristo morto, pois é lá que enxergamos o sofrimento de Deus, e é lá que podemos ver seu amor. Mas é na ressurreição que reside a nossa esperança e não na cruz.”👏

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