Sobre a criação dos homens da mitologia Tolkieniana

Obs: este texto faz parte de uma pesquisa maior, já apresentada parcialmente aqui com o nome de Tolkien e a Teodiceia de O Silmarillion, que será concluída no final de 2016.

 

Aqui, observaremos alguns trechos onde J. R. R. Tolkien narra alguns detalhes sobre a criação dos homens, para assim, estabelecer alguns diálogos entre os homens da Sub-criação de Tolkien e os homens no mito cristão.

O autor mostra, no capítulo Do início dos tempos, que os homens foram criados finitos, ou seja, eles foram feitos com um começo e um fim. Tolkien elabora rapidamente a ideia de a morte ser algo presente desde o início e, por tanto, seria algo bom, ou como o próprio Tolkien narra, um dom dado aos homens por Ilúvatar. Contudo, esse dom foi corrompido por Melkor, que fez com que os homens entendessem a morte como algo ruim*:

A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. [1]

Também se pode observar que Ilúvatar da aos homens algo a mais que os próprios elfos ou Ainur. Na narrativa, observa-se que será através dos homens que a criação se completará:

Ele, assim, determinou que os corações dos homens sempre buscassem algo fora do mundo e que nele não encontrassem descanso; mas que tivessem capacidade de moldar sua vida, em meio aos poderes e aos acasos do mundo, fora do alcance da Música dos Ainur, que é como que o destino de todas as outras coisas; e por meio da sua atuação tudo deveria, em forma e de fato, ser completado; e o mundo seria concluído até o último e mais ínfimo detalhe. [2]

Ao dizer que é a partir de uma determinação do próprio deus que os homens passam a buscar algo fora do mundo, ou fora do tempo, Tolkien faz uma clara referência ao versículo 3 de Eclesiastes, no versículo 11, onde diz que a eternidade foi colocada por Deus no coração do homem, dessa forma, embora o homem não compreenda completamente a deus, ele passa a buscar sentido para os diversos acontecimentos de sua vida. Quanto a isso, é possível fazer uma referência ao Apóstolo São Paulo em sua carta à Igreja de Filipos, onde ele mostra que o sentido da vida reside em estar satisfeito em Deus e confiante que ele proverá o necessário, como também está escrito no Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 6, do versículo 30 ao 34. Mais a frente, ao falar a respeito do dom da morte dado aos homens, o autor volta a falar dessa questão da finitude humana, estabelecendo um diálogo com a carta aos Hebreus, no capítulo 11, versículos 12 a 14, onde o autor diz que todos os testemunhos de fé mencionados anteriormente no texto bíblico só foram possíveis, pois estes eram como o próprio texto diz, estrangeiros e peregrinos sobre esta terra:

Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. [3]

Em seguida, o autor ressalta a presciência de Ilúvatar ao mostrar seu conhecimento a respeito das consequências da existência dos homens em meio aos diversos acontecimentos, ou, como o mesmo diz, o torvelinho dos poderes do mundo, e que isso, por fim, resultaria em glória para sua obra. Pode-se igualmente observar que a revelação que os homens têm, é uma revelação progressiva, pois o entendimento da criação só será completo em um tempo vindouro, quando os mesmos completarem a criação através de suas escolhas.

:

Ilúvatar sabia, porém, que os homens, colocados em meio ao torvelinho dos poderes do mundo, se afastariam com frequência do caminho e não usariam seus dons em harmonia; e disse: – Esses também, no seu tempo, descobrirão que tudo o que fazem resulta no final em glória para minha obra. [4]

Aqui, podemos observar um diálogo com a ideia de livre arbítrio de Santo Agostinho, onde através das escolhas livres dos homens a criação será da forma que foi planejada, ou seja, as escolhas livres dos homens estão de acordo com a vontade de Deus e não há nada que possa fugir dos planos dele, como vemos no primeiro capítulo de O Silmarillion, e também no livro de Jó, no capítulo 42, versículo 2. Voltando rapidamente para o Ainulindalë, podemos ver novamente a questão do livre arbítrio dos homens, contudo, vemos também pela primeira vez a ideia de imagem e semelhança apresentada em Gênesis:

Portanto, quando os Ainur os contemplaram, mais ainda os amaram, por serem os Filhos de Ilúvatar diferentes deles mesmos, estranhos e livres; por neles verem a mente de Ilúvatar refletida, a qual, não fosse por eles, teria permanecido oculta até mesmo para os Ainur. [5]

Ao mostrar que os homens, diferente dos Ainur, possuem o reflexo da mente de Ilúvatar, além de um diálogo com o Gênesis, como já citado, pode-se estabelecer aqui um diálogo com a Teologia Paulina, na primeira carta a Igreja de Corinto, no capítulo 13, no versículo 12, onde o Apóstolo se utiliza da figura de um espelho para estabelecer a ideia dos homens serem parciais e limitados, mas que caminham para uma existência plena junto com Deus. Da mesma forma, Tolkien reflete essa ideia em O Silmarillion, como podemos ver na história de Aulë, onde o autor narra o seguinte: “(…) a vontade de fazer coisas está em meu coração porque eu mesmo fui feito por ti.”; também em seu ensaio Sobre Histórias de Fadas, onde o mesmo elabora a ideia de sermos criadores por termos sido criados, e, por tanto, somos reflexos de um criador maior.

Os homens não só conceberam elfos, mas imaginaram deuses, e os cultuaram, e cultuaram até aqueles mais deformados pelo mal de seu próprio autor. Mas fizeram falsos deuses a partir de outros materiais: suas opiniões, seus estandartes, seus dinheiros; até suas ciências e suas teorias sociais e econômicas demandaram sacrifício humano. Abusus non tollit usum. A Fantasia continua sendo um direito humano: fazemos em nossa medida e a nosso modo derivativo, porque somos feitos, e não apenas feitos, mas feitos à imagem e semelhança de um Criador. [6]

Estes homens, semelhante à doutrina bíblica da Queda, também se corromperam e se desviaram do caminho inicialmente traçado para eles, como está narrado no Akallabêth:

[…] a Morte não se afastou da Terra. Pelo contrário, passou a vir mais cedo, com maior frequência e com muitas roupagens terríveis. Pois, enquanto no passado os homens envelheciam lentamente e se deitavam no final para dormir, quando finalmente se wallup.netcansavam do mundo, agora a loucura e a doença os acometiam. E mesmo assim eles sentiam medo de morrer e entrar no escuro, o reino do senhor que haviam escolhido; e se amaldiçoavam em sua agonia. E os homens se armavam naquela época e se matavam uns aos outros por motivos insignificantes; pois se haviam tornado

irritadiços, e Sauron, ou aqueles que ele recrutara para si, percorria a Terra, instigando um homem contra o outro, de modo que o povo murmurava contra o Rei e os senhores, ou contra qualquer um que tivesse algo que ele não possuíssem. E os homens dotados de poder se vingavam com crueldade. [7]

Por fim, embora existam diferenças entre os homens da mitologia cristã e da mitologia tolkieniana, as semelhanças existentes são suficientes para que se estabeleça o diálogo desejado. Assim como entende a teologia cristã, os homens da sub-criação de Tolkien apresentam uma história governada por um deus com aspectos semelhantes ao Deus cristão; apresentam a capacidade de escolha, ou seja, são agentes morais livres; são seres criados bons e com um propósito inicial, mas devido a escolhas erradas, se tornaram “caídos” e corrompidos, assim como afirma a teologia cristã.

Notas:

* Quanto a isso, Tolkien em uma carta para Peter Hastings, em setembro de 1954, que: “(…) os Homens são essencialmente mortais e não devem tentar tornar-se ‘imortais’ na carne.” . Em uma nota de rodapé nesta mesma carta, o autor acrescenta que: “Visto que a ‘mortalidade’ é assim representada como uma dádiva especial de Deus à Segunda Raça dos Filhos (os Eruhíni, os Filhos do Deus Único) e não como uma punição por uma Queda (…).”

Referências:

1. TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015, p. 36-7.

2. Ibdem, p. 36.

3. Idem.

4. Idem.

5. Ibdem, p. 7.

6. TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 54.

7. TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015, p. 348-9

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Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
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