A história de um homem bêbado e a história da nossa hipocrisia

Era uma quarta-feira normal. Já era noite e eu estava voltando da faculdade. Havia passado o dia por lá fazendo as pesquisas, assim como planejado. Quando estava no meio do caminho da volta para casa, sobe um homem no ônibus. Tinha por volta dos quarenta anos de idade e estava nitidamente bêbado. Ele entrou no ônibus, cumprimentou o motorista, cumprimentou todos no ônibus, um por um, mas não passou a catraca, cumprimentou apenas de longe, até que finalmente, quando se cansa de ninguém dar atenção para ele, se senta no banco preferencial. Como já é de praste da maioria dos bêbados, ele começou a contar diversas histórias e quase todas eram completamente desconexas entre si. Mas uma delas me chamou a atenção.

“Ele veio e me pediu ajuda. A mãe dele estava descontando os problemas nele, o pai havia saído de casa a mais ou menos uma semana a namorada o havia deixado. Ele veio me pedir ajuda e eu ajudei. Eu disse o que qualquer pastor diria: ‘confia em Jesus e não transa antes do casamento que vai dar tudo certo, porque se Jesus voltar e você estiver pecando, você fica.’ Qualquer pastor diria isso. Eu tentei ajudar ele e eu realmente achei que tinha ajudado. Mas dai, umas semanas depois, eu recebo a mensagem de que a ajuda não tinha adiantado muita coisa: o desgraçado se matou! Como ele pode se matar? Eu falei pra ele o que tinha que falar: “obedeça, não peque!” O que mais eu tinha que dizer? Eu era só um pastor, não um psicólogo ou um teólogo ou qualquer outro ‘ólogo’ da vida.”

O ônibus deu uma parada um tanto brusca, devido a uma criança no meio da rua. Todos no ônibus se manifestaram. O bêbado ficou calado. Após o ônibus voltar a andar, todos se calaram novamente e o homem voltou a falar.

“Sabe, agora eu não sou mais pastor, então eu não preciso mais me preocupar em mentir pros outros. Se eu ainda fosse pastor, iam me encher o saco só porque eu bebi um pouquinho.”

Algumas pessoas no ônibus riram quando ele disse: um pouquinho. Ele parou de falar, com um ar de quem não havia aprovado as risadas, mas logo deu de ombros e voltou a contar sua história.

“Mas já que eu não sou, então não tem problema. Ah, como me divirto com esses puritaninhos! Querem fugir do inferno, mas pra isso transformam a vida dos outros em inferno. Tem problemas com bebida? Só falar que beber é pecado que você se safa! Tem problema com sexo? Só falar que quem transa vai pro inferno que você se safa! Tem problema com cigarro? Simples, fala que é passaporte pro inferno. Já é fácil saber o que eles vão falar, eles nem precisam abrir a boca. Todo mundo fala que é santo, mas na verdade é santarrão. Cara lavada e mão encardida. Ninguém nunca explica porque as coisas são erradas, simplesmente repetem como robôs o que ouviram de androides”

Ao ouvir esse homem desabafando, eu não soube o que fazer. Ele nitidamente estava machucado. Eu conhecia a cura, mas eu neguei ajuda. Por que eu neguei ajuda…? Como seria a vida dele se nenhum dos problemas dele tivessem acontecido? Ele voltou a falar, mas agora, sua voz estava tremula, como quem está prestes a chorar.

“Eu fiz tudo o que me mandaram, exatamente da forma como me disseram para fazer. Eu tentei ajudar!”

Nesse momento, ele da um grito que faz com que um clima de tensão se instale no ônibus. Depois de alguns segundos quieto, ele volta a falar.

“Se vocês soubessem o que sinto, não ficariam ai apenas me ouvindo falar e fingindo que não estou aqui. EU EXISTO, embora muitos de vocês ajam como se fosse o contrário. Sabe porque eu não mudo? Porque eu não quero! Faço por que quero, e sofro porque sou preso as minhas vontades. Eu não quero mais ficar aqui! Eu não quero mais! Eu queria ter a coragem que aquele rapaz teve, queria poder arrancar minha vida e acabar com essa culpa, mas minha covardia não deixa. Ao menos, ela não me abandonou…”

Ao terminar de falar, ele levantou uma garrafinha de plástico com um liquido transparente. Ele olhava aquela garrafa com tanta paixão e ao mesmo tempo com tanta tristeza… Depois disso, ele se levantou, andou até o motorista e disse: “Seu ‘moto’, meu ponto é o próximo, mas acho que to sem dinh…” O homem logo foi interrompido pelo motorista que parou bruscamente a mais ou menos 7 metros do ponto e disse: “Desce logo e não me enche o saco. Da próxima você vai descer no ponto final.”

Assim que o homem saiu, o clima de tensão que predominava o ônibus saiu junto. Todos voltaram suas atenções à seus celulares. Alguns comentaram com as pessoas ao lado sobre o acontecimento, mas nada que durasse mais de 30 segundo. No final, todos voltavam para os seus celulares. Eu não fui completamente diferente, embora não tenha conseguido permanecer no celular. Fiquei pensando o porque de todos agirmos dessa forma: estávamos diante de um ser humano com problemas e o abandonamos. O que nos leva a sermos tão apáticos com um aparente alcoólatra e sermos transfigurações divinas diante de crianças de rua quando estamos participando de algum projeto social ? Isso quando participamos de algum projeto.

Entenda, não estou querendo dar um sermão sobre como não nos envolvemos socialmente. Eu seria um hipócrita se fizesse isso. O que estou fazendo é simplesmente transmitindo o que aquele homem me passou: desconforto. Esse homem me gerou desconforto não por ele mesmo, mas gerou um desconforto em mim. As críticas que faço sobre a sociedade e tudo o mais, estão explicitas como um exemplo vivo em mim. O bem que eu quero, esse eu não faço.

Se um dia eu reencontrar este homem – isso se eu me lembrar do rosto dele -, eu gostaria de fazer diferente, mas infelizmente, não sei se eu faria. Eu descobri que me tornei aquilo que abomino, e isso me torna pior do que um homem que se afoga na bebida.

Deus tenha piedade de nós…

Anúncios

Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
Esse post foi publicado em Literatura e Teologia, Teologia. Bookmark o link permanente.