Sobre Amizade e solidão intelectual

“Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão. Porque na muita sabedoria, há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.”

Eclesiastes 1:17, 18

Talvez este não seja um tema que agrade a todos. Talvez nem todos se identifiquem. Talvez eu esteja falando sozinho, mas o importante é que ainda posso falar, por isso, continuarei falando. Desde que comecei a me interessar pelos estudos, descobri duas coisas: a primeira era de que estava diante de um mundo muito maior do que aquele que eu conhecia e que haviam me apresentado; a segunda, é que eu já havia perdido tempo demais e não conseguiria conhecer tudo o que gostaria. Mas isso não foi o suficiente para me desanimar. No começo, me contentei em ler obras contemporâneas de literatura, como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia e até algumas mais antigas como Alice no País das Maravilhas. Com o tempo, fui percebendo que todos esses autores falavam algo a mais do que simplesmente contar um história: foi quando comecei a me aventurar pela filosofia, mas ainda estava conhecendo. Comecei com o Mundo de Sofia, depois fui para um introdução a filosofia para o ensino médio, até que cai em Dostoiévisk, Os Diários do Subsolo. Confesso que foi uma leitura difícil no começo, mas aos poucos, conforme fui me acostumando, fui também me apaixonando. Mas logo parei essas leituras para ler sobre política, depois sobre sociologia, depois teologia, depois antropologia, para então voltar para literatura e continuar esse ciclo que cada vez mais aumentava.

Aquilo que começou com Harry Potter, foi terminar com T. S. Eliot e Tolkien, que por sua vez puxaram Chesterton, que puxou Santo Tomás de Aquino, que puxou Santo Agostinho, Aristóteles, Platão, e toda um infinidade de pessoas. Muitos se tornaram apenas conhecidos, outros eu não desejo ver nunca mais. Alguns não se afastam de jeito nenhum, outros se tornaram amigos distantes, outros companheiros de jornada. Conhecer aquilo que já conheceram, fazer parte de um grupo de pessoas que ultrapassava as barreiras do tempo, tornou-se um paixão. Contudo, perceber que dentre os vivos que me rodeavam, eu estava só, era um tanto desconfortante.

Quando conheci Victor Hugo, minha vontade era de apresenta-lo para aqueles que me rodeavam, mas o máximo que consegui foram alguns minutos de desconforto. Quando me deparei com René Girard, Campbell, Tolkien, Chesterton, minha primeira reação foi estampar um grande sorriso no rosto e gritar para todos o que havia descoberto! Mas quando percebi que o que eu falava soava como um estrangeiro falando um língua desconhecida, a alegria cessou.

Quando você descobre uma paixão e não pode compartilha-la com alguém que sente o mesmo, você percebe que está sozinho, mesmo estando rodeado de pessoas. Ainda que essas pessoas te amem e esse amor seja reciproco, a sensação de solidão se torna tão real e tão palpável quanto esse amor.

A amizade do antigos é reconfortante, mas não traz a alegria da presença. Ainda que muitos consigam se fazer presentes, ainda que presos em tempos antigos, a necessidade do contato humano ainda se sobressai ao ânimo de conhecer.

Salomão percebeu isso, muitos e muitos anos atrás. Conhecer, é perceber coisas que não perceberia se desconhecesse. A sabedoria dos antigos supera a prepotência da nossa pseudo-inteligência…

Um filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, em uma de suas aulas, aconselhou um de seus alunos a abandonar seus amigos que não o acompanhavam intelectualmente. Eu teria tudo para concordar com o professor, mas não consigo limitar amizade a simples companhia intelectual. Por mais que eu acredite piamente que esta seja importante, não creio que seja suficiente. A amizade vai além do estimulo intelectual, mas tem haver com relacionamento. Por mais que C. S. Lewis possa me consolar em meio a um possível luto, ele não pode me oferecer um abraço e uma conversa sincera. Ainda que Santo Agostinho possa me ajudar com crises espirituais, ele não pode ouvir meus problemas e orar comigo. Mesmo que Platão responda muitas das minhas dúvidas, ele não pode entender os problemas que as geraram. Os mortos estão mortos, portanto, limitados.

Se o professor Olavo de Carvalho estivesse certo, a realidade seria tão angustiante quanto sugeriam os existencialistas e niilistas. Se amizade se limitasse a companhia intelectual, então a felicidade seria algo pequeno demais para ser um anseio tão grande do ser humano. Mais do que um boa conversa sobre política, teologia ou filosofia, amizade é poder rir sem problemas com alguém a quem você ame. Amizade é poder chorar e poder se alegrar, independente se a pessoa saberá definir em termos filosóficos e teológicos o que é alegria ou não. Sei que seria maravilhoso alguém que além de acompanhar intelectualmente, também fosse um verdadeiro amigo, mas então como cresceríamos? Se somos apaixonados pelo conhecimento, devemos então ansiar pelo confronto, para que exista crescimento. Isso causara mais dor e trará mais solidão? Sim, mas ao mesmo tempo trará uma alegria que você não encontrará nunca em livros e em pensamentos abstratos. No final das contas, todo o pensamento se volta para o relacionamento entre as pessoas. No final de tudo, ainda devemos amar o próximo como a nós mesmo.

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Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
Esse post foi publicado em C. S. Lewis, Chesterton, Cosmovisão Cristã, Sociedade. Bookmark o link permanente.

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