Sobre a Reforma Protestante e a necessidade de uma Nova Reforma

Ecclesia reformata et semper reformanda est 
(A Igreja Reformada está sempre se Reformando)

Alguns anos atrás, 500 para ser mais exato, tivemos o início do movimento que mais tarde ficou conhecido pelo nome de Reforma Protestante. Diante de uma crise moral e doutrinária que a Igreja estava passando, o monge agostiniano, Martinho Lutero, resolveu se posicionar a respeito dessa situação. Lutero, assim como aqueles que vieram depois dele, como Zwinglio, Melancton, Calvino, Armínio e outros, foram responsáveis por estruturar e propagar esses ensinos: mas que ensinos foram esses? Os Reformadores entenderam que deveríamos voltar as fontes e parar de inventar novas respostas para antigos problemas. Já temos a suficiência das Escrituras e a sabedoria da Tradição para auxiliar-nos com esses problemas. Agora, cabe a nós trazermos essas respostas para a nossa época e para o nosso contexto. Cabe aos cristãos de cada época, com ajuda daqueles que vieram antes deles, serem luz do mundo e sal da terra. Mas por que isso não acontece? Por que os cristãos hoje em dia não são como Policarpo de Esmirna, ou como Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santa Tereza D’ávila, Duns Scott, Martinho Lutero, João Calvino, Dietrich Bonheffer, C. S. Lewis, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Francis Schaeffer? Por que a voz cristã não é mais relevante? O que houve de errado?

Acredito que o que deu errado, foi que levamos a Reforma ao pé da letra. Para ser mais exato, levamos o Sola Scriptura ao pé da letra: as Escrituras não são mais a base da nossa fé, ela se tornaram também as paredes e o teto. Aquilo que antes deveria trazer vida, está trazendo uma morte lenta para a Igreja. A suficiência das Escrituras não significa que ela deve dar uma resposta definitiva para todas as questões da vida. As Escrituras são o ponto de partida e nossa âncora para todas as questões. As Escrituras nos dão o ponto de partida para todas as questões: Kuyper, Calvino, Dooyeewerd, Santo Agostinho, São José Maria Escrivá, Santo Tomás de Aquino e tantos outros tiveram as Escrituras como base do que falaram pois entenderam que é dela que temos a perfeita revelação do Verbo encarnado, da verdade e da vontade divina. A Bíblia Sagrada é aquela que traz vida pois ela é a suficiente revelação de Cristo, o autor e consumador da nossa fé.

Qual a diferença de todos os cristãos que vieram antes de nós e dos cristãos de 20, 30 anos pra cá? Por que viramos motivo de chacota e não mais um referencial onde passamos? Nossa história está cheia de mártires que morreram em prol da Verdade, cheia de pessoas que foram relevantes para o Reino de Deus e para a sociedade a sua volta. Foram cristãos os maiores cientistas, filósofos, políticos, artistas, etc, mas por que isso mudou? Por que abraçamos um conservadorismo burro! Não somos mais conservadores como foram aqueles Santos e Santas que vieram antes de nós, não! Somos, no pior sentido da palavra, meros progressistas que querem encontrar a Verdade sozinhos, ainda que ela já esteja suficientemente revelada nas Escrituras e em grande parte já tenha sido satisfatoriamente interpretada por grande parte da Igreja do passado (1). Vivemos discutindo se existe ou não predestinação, se a salvação se perde ou não, se batismo se faz por imersão ou aspersão, se Deus criou ou não o mal e diversas outras questões que já foram satisfatoriamente respondidas pelas Escrituras e pela Tradição da Igreja. Estamos procurando respostas que já nos foram dadas ou respondendo perguntas que ninguém fez e isso devido ao mal uso de um dos Solas da Reforma, o já mencionado Sola Scriptura. Nos prendemos de tal forma às Escrituras, que nos achamos no direito de reinterpretá-la, nem que seja para chegarmos as mesmas conclusões que os antigos chegaram.

Somente as Escrituras são nossa fonte de fé e prática, diziam os Reformadores e essa é uma máxima ao qual eu concordo e abraço. Contudo, como bem observaram teólogos como Kevin Vanhoozer, Peter Leithart, Alister MacGrath(2) e outros, qual interpretação das Escrituras é a correta? Como andaremos em consonância com a Igreja que nos antecedeu e fez o Evangelho chegar até nós? Simples: voltemos as raízes da Reforma! Voltemos à Tradição, voltemos aos Evangelhos, voltemos às Escrituras! Contudo, uma questão permanece: como responderemos aos novos dilemas da sociedade? Como daremos uma resposta cristã a respeito de questões que as Escrituras não se preocuparam a falar explicitamente, como política, educação, sexualidade e as novas filosofias? Como já disse, as Escrituras nos fornecem a base de toda a nossa vida e é a partir dela que devemos responder, mas reconhecendo os limites que o próprio Deus impôs a ela. A Bíblia não é um livro científico para tirarmos conclusões científicas dela, nem um livro de sociologia, filosofia ou política. A Bíblia é um livro que contém a revelação suficiente do Deus trino, criador do céu e da terra, sustentador da história e consumador da mesma, ela conta a história do relacionamento de Deus com o homem e de como o homem pode e deve se aproximar novamente dEle.

Enquanto continuarmos com essa mentalidade progressista de uma fé que permite renovações, continuaremos a ser a chacota da sociedade. Enquanto não voltarmos para as raízes da nossa fé, assim como fizeram os Reformadores, continuaremos a ser “representados” por figuras como Feliciano, Malafaia e outras figuras públicas que tem se levantado em nome de uma massa evangélica burra. Enquanto não tivermos fixos os pilares da nossa fé e enquanto não estivermos em consonância com a Igreja de todas as épocas e lugares, não estaremos prontos para fornecer respostas verdadeiramente bíblicas e cristãs para a sociedade. Enquanto não entendemos o caráter sinfônico da Verdade e do corpo de Cristo(3), não seremos relevantes.

Precisamos de uma nova Reforma, mas não com ideias novas: precisamos de uma nova Reforma com abordagens novas. Devemos fazer como fizeram os Reformadores e termos as Escrituras como firme fundamento da nossa fé, mas nunca tentar torcê-la para que ela responda perguntas que ela não se preocupa em responder. Devemos conhecer nossa cultura o suficiente para sabermos responder biblicamente a todos os problemas que ela enfrenta. Que sejamos cristãos relevantes, assim como foram João Calvino, Abraham Kuyper, Francis Schaeffer, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Dietrich Bonhoeffer e todos os outros membros do corpo do Cristo ressurreto espalhados pela terra.

Soli Deo Gloria

NOTAS:

(1) Embora entenda que as Escrituras já tenham sido, em grande parte, satisfatoriamente interpretadas pela Tradição Cristã, isso não significa que eu acredite que devemos nos prender completamente a Tradição como se está fosse infalível, mas que devemos tê-la como apoio no que é e sempre foi consenso em toda a cristandade. Em questões secundárias, não vejo problema a divergência se não houverem disputas.

(2) Caso haja curiosidade de aprofundamento no assunto, recomendo a leitura dos seguintes livros: Biblical Authority after Babel: retrieveing the solas in the spirit of mere protestant christianity, Was the Reformation a Mistake?: why catholic doctrine is not unbiblical e O Drama da Doutrina de Kevin Vanhoozer; A Gênese da Doutrina e Christianity’s Dangerous Idea: the protestant revolution de Alister McGrath; The End of Protestantism: pursuing unity in a fragmented church de Peter Lithart.

(3) Ao me referir a um caráter sinfônico da Verdade, não estou me referindo a um pensamento relativista ou a algum ecumenismo burro, mas ao pensamento do teólogo Hans Urs von Balthasar, principalmente em seu livro A Verdade é Sinfônica: aspectos do pluralismo cristão. Caso exista um interesse no aprofundamento da ideia, recomendo também a leitura do livro organizado por Pedro Dulci, Igreja Sinfônica: um chamado radical pela unidade dos cristãos, pois traz essas ideias para o contexto das Igrejas Brasileiras.

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Sobre Maurício Avoletta Junior

Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria), apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro "seja o que Deus quiser".
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