Sobre o problema do mal

O problema do Mal é um problema teológico e filosófico geralmente atrelado a famosa pergunta: Se Deus é realmente bom, porque existe tanto mal e sofrimento no mundo? Um dos principais pontos de partida para esse problema, é o pressuposto de que o deus em questão seja verdadeiramente bom ou verdadeiramente todo-poderoso, pois caso um desses pontos não sejam verdadeiros, então iremos nos deparar com alguns problemas. O filósofo Alvin Plantinga diz o seguinte sobre essa questão:

Muitos filósofos creem que a existência de mal constitui uma dificuldade para o teísta, e muitos creem que a existência de mal (ou, pelo menos, a quantidade e tipos de mal que atualmente encontramos) torna a crença em Deus irrazoável ou racionalmente inaceitável. [1]

A linha de raciocínio básica do Problema do Mal diz que se Deus quer impedir ou acabar com o mal, mas não o faz por não poder, então ele não é todo poderoso. Se Deus pode impedir ou acabar com o mal, mas não o faz porque não quer, então ele não é totalmente bom. Se Deus quer e pode acabar com o mal, mas não o faz, se ele realmente existir, por que deveríamos servi-lo? Dessa forma, alguns entendem que as três afirmações não podem ser verdadeiras simultaneamente, por tanto, ou Deus não é todo bom, ou não é todo poderoso, ou ele não existe. Essa posição será chamada por Plantinga de Ateologia Natural, que nas próprias palavras do autor seria: “(…) a tentativa de provar que Deus não existe ou que, de alguma forma, é irrazoável ou irracional acreditar que ele existe”. [2] Por fim, David Hume elabora o problema da seguinte forma: “Quer ele impedir o mal, mas é incapaz de fazê-lo? Então é impotente. É capaz, mas não o quer? Então, é malévolo. Quer e é capaz? De onde vem então o mal?” [3]

A elaboração e sistematização de uma resposta para essa pergunta, recebe o nome de teodiceia, alguns pensadores se preocuparam em tentar responder a estas perguntas, tais como Immanuel Kant, Paul Ricoeur, C. S. Lewis, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, entre outros. Embora estes discordem em alguns aspectos de suas respectivas teodiceias, eles tendem a concordar em alguns pontos. Um desses pontos, se propõe a entender o que é o mal, ou seja: O mal é algo, no sentido de ter um existência física?

Santo Tomás de Aquino, o famoso Doutor Angélico da Igreja Católica e um dos principais filósofos da Idade Média, pensava, assim como Santo Agostinho antes dele, que o mal não tinha uma existência própria ou uma existência física. Santo Tomás de Aquino afirma o seguinte no livro, Sobre o Mal:

1. Temos o que diz Agostinho no livro XI d’A Cidade de Deus, a saber, que o mal não é uma natureza, mas toma este nome de um defeito do bem.
2. Além do mais, diz-se em João, 1, 3: “Todas as coisas foram feitas por Ele”. O mal, contudo, não foi feito pelo Verbo, como diz Agostinho. Logo, o mal não é algo.
3. Além do mais, também ali se diz, mais abaixo: “’Sem Ele nada foi feito’, isto é, o pecado, uma vez que o pecado não é nada, e que nada se faz quando os homens pecam”, como se diz na Glosa de Agostinho a esta mesma citação; e, pela mesma razão, qualquer outro mal não é nada. Logo, o mal não é algo. [4]

Santo Tomás de Aquino, assim como muitos outros pensadores, tinha uma visão agostiniana quanto a natureza do mal, ou seja, estes entendiam que o mal não existia fisicamente de nenhuma forma, mas era tão somente a intenção corrupta, ou seja, o mal estava na intenção de um ato, mas não no ato em si. Santo Agostinho ao tentar descobrir o que era o mal, concebe a ideia de que ele não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade.[5] Em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, um agostiniano explícito, elabora a ideia do mal como perversão da vontade da seguinte forma:

Na realidade porém, não encontramos ninguém que aprecie o Mal só porque é o mal. O mais próximo disso seria a crueldade. Mas, na vida real, as pessoas são cruéis por um de dois motivos: por sadismo, ou seja, por causa de uma perversão sexual que faz da dor um objeto de prazer sensual, ou pela busca de algum benefício externo – dinheiro, poder, segurança. O prazer, o dinheiro, o poder e a segurança, considerados em si mesmos, são coisas boas. A maldade consiste em tentar obtê-los pelos métodos errados, ou de forma errada, ou em excesso. Não quero dizer, de modo algum, que não sejam terrivelmente perversas as pessoas que agem assim. Digo apenas que a perversidade, quando a examinamos de perto, revela-se como um jeito errado de buscar o Bem. […] A bondade, por assim dizer, é ela mesma, ao passo que a maldade é apenas o Bem pervertido. E, para que haja perversão, é preciso que antes haja uma perfeição. [6]

Agostinho argumenta que tudo aquilo que existe é bom, pois foi Deus quem criou todas as coisas, e sendo Deus totalmente bom, não é capaz de criar algo mal. Por sua vez, Santo Tomá de Aquino exemplifica, dizendo que do branco, só sai branco e não é possível sair o preto, pois para isso, deveria-se misturar o branco com todas as outras cores, por tanto, corrompê-lo. Sendo assim, o mal não pode ser uma substância, pois não foi criado por Deus, pois como o mesmo diz “(…) se o fosse, seria um bem”. [7] Agostinho, por fim, caracteriza a perversão da vontade como corrupção da seguinte forma:

Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E se não fossem boas nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo que se corrompe sofre diminuição de bem. [8]

C. S. Lewis, chega a afirmar, novamente em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, que o mal nada mais é do que um parasita [9], ou seja, que este se aloja naquele que é corrompido, dialogando assim com a doutrina cristã da Queda. O mal, portanto, seria a corrupção. Por ser o homem, segundo a Tradição Cristã, criado apenas a imagem e semelhança de Deus e não idêntico a Deus, este é apenas parcialmente bom, ou como diz Santo Agostinho: “Ele é certamente o sumo bem, e as criaturas são bens menores.”[10] e também mais a frente : “(…) a alma do homem, embora dê testemunho da luz, não é a própria luz.”[11] Por não ser totalmente bom, ele tem então, a possibilidade de deixar de ser bom, pois há nele algo que pode ser corrompido. C. S. Lewis diz que “(…) estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como deveria ser” [12], no entanto, após a Queda narrada em Gênesis 3, o homem se encontra em um estado “caído” ou desgraçado, no sentido teológico de estar desprovido de graça. Sendo assim, todo homem a partir de Adão e Eva se encontra na posição de um ser corrompido, portanto, todo homem pós-queda é incapaz de fazer o bem por vontade própria, ainda que ele tente fazer o bem e tenha boa intenção para isso, o bem só pode vir de forma plena de Deus. Santo Agostinho diz que “contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa. (…) somente de ti vinha o bem, meu Deus.”[13]

G. K. Chesterton, em sua crônica, O Segredo de Padre Brown, ilustra a questão da corrupção humana de forma bastante interessante. Ao ser questionado como conseguia desvendar com tamanha facilidade os crimes que apareciam para ele, a personagem fictícia de Chesterton, Padre Brown, diz que o motivo de ele desvendar tão facilmente esses crimes, era porque ele mesmo era o criminoso. Não que ele tivesse cometido os crimes, mas que ele era tendencioso aos sentimentos que geraram os crimes, tanto quanto o criminoso:

Quero dizer que, de fato eu me vi, o meu eu real, cometendo os assassinatos. Não é que tenha matado os homens por meios materiais: mas não é esse o ponto. Qualquer tijolo ou maquinaria poderia tê-los matado por meios materiais. Quero dizer que pensei e pensei sobre como um homem poderia vir a ser daquele modo, até descobrir que eu era realmente similar a isso em tudo, exceto no consentimento atual e final para a ação. [14]

Dessa forma, Chesterton, semelhante ao que o mesmo já afirmou em seu livro Ortodoxia1 , se encontra abraçado por toda a cristandade ao afirmar que o homem é por natureza um ser corruptível, corrupto e corrompido, evocando aqui a Teologia Paulina, onde o Apóstolo São Paulo diz a Igreja de Roma: Porque todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus2. Sendo assim, entende-se que qualquer ser humano no lugar de Adão e Eva cometeria o mesmo erro por compartilhar da mesma natureza e dos mesmos desejos e impulsos.

Embora possamos dizer que a resposta para a pergunta, “o que é o mal?”, esteja razoavelmente respondida, ainda fica a questão de como surgiu o mal. Santo Agostinho, como já vimos, entendia que o mal não possuía uma existência própria, ou seja, o mal não era algo ou uma criação, mas uma ação. Por ser uma ação, deve portanto, partir de um agente moralmente livre que seja capaz de escolher realizar uma ação que resulte em algo mal ou que resulte em algo bom. Essa capacidade de um agente moralmente livre escolher entre fazer o bem ou fazer o mal, é teologicamente entendido como livre-arbítrio. Agostinho entendia que Deus havia criado seres moralmente livres, capazes de escolher fazer o bem ou fazer o mal, e é exatamente nesse ponto que Agostinho entende o surgimento do mal, do livre-arbítrio. Em um de seus diálogos com Evódio no livro, O Livre-Arbítrio, Santo Agostinho diz o seguinte:

Evódio: Haverá então algum outro autor do primeiro gênero de mal3, uma vez estar claro não ser Deus?
Agostinho: Certamente, pois o mal não poderia ser cometido sem ter algum autor. Mas caso me perguntes quem seja o autor, não o poderia dizer. Com efeito, não existe um só e único autor. Pois cada pessoa ao cometê-lo é o autor de sua má ação. (…) as más ações são punidas pela justiça de Deus. Ora, elas não seriam punidas com justiça, se não tivessem sido praticadas de modo voluntário. [15]

Ou seja, o mal, para Agostinho, é necessariamente fruto de uma livre escolha do homem, em outras palavras, de seu livre-arbítrio. Agostinho entende também que essa liberdade para fazer o mal é o crivo para a condenação do homem, pois este ainda é totalmente livre para escolher fazer o mal. Em seu livro O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis elabora uma teodiceia Agostiniana4, ou seja, elabora seu pensamento na mesma linha do bispo de Hipona quanto a natureza do mal. Lewis irá, assim como Santo Agostinho, atribuir ao livre-arbítrio a responsabilidade pela existência do mal, e aceitar Deus como o regente do universo e senhor da história atuando nela através de sua providência. Contudo, essa questão nos leva a um problema um pouco maior.

A Teologia Cristã identifica alguns atributos em Deus, tais como benevolência, onipresença, onisciência, onipotência, soberania, justiça, entre outros, no entanto, alguns desses atributos geram pequenos atritos em contraste com a teodiceia aqui apresentada, como por exemplo a soberania divina: Se Deus é soberano, eterno e se encontra a parte do tempo, isso não incorreria em um determinismo? Se sim, isso não forçaria o teísta a admitir que Deus, direta ou indiretamente, é o único e principal criador e autor do mal?

G. K. Chesterton identifica em seu livro Ortodoxia, no capítulo intitulado, A ética de Elfolândia, que os contos de fadas – ou de Faërie, o Reino Encantado, como dizia Tolkien5 – são frutos de um tradição, que como diz o próprio autor, são oriundos do país ensolarado do bom senso6, onde não é a terra que julga os céus, mas o céu que julga a terra. De forma semelhante a J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, René Girard e outros, Chesterton entende que os contos e os mitos contém um núcleo em comum, o que os torna, de certa forma, parte de um único mito, que Tolkien e Lewis vão identificar como o único mito que se fez fato, os evangelhos. Mais a frente, Chesterton irá mostrar que assim como os contos de fada, o Cristianismo é digno de confiança, não por ser um conto de fadas, mas por assim como os contos de fadas, ser fruto de uma tradição que remonta, usando uma analogia do próprio autor, a vivência do povo de uma aldeia que é totalmente lúcido e não aos relatos de um estudioso lunático que observa tudo do lado de fora7. No capítulo seguinte, Chesterton apresenta e enfrenta certos problemas que muitas pessoas encontram na Teologia Cristã, tais como a dupla natureza de Cristo, os milagres ou até mesmo – embora Chesterton não fale especificamente sobre isso – o próprio mal. O autor irá argumentar que estes não são paradoxos, mas apenas verdades parciais, como exemplo, Chesterton se utiliza dos supostos “paradoxos” do corpo humano, para mostrar que mesmo em seus aparentes erros o Cristianismo acerta. Usando o exemplo do autor, identificamos no corpo humano “verdades aos pares”, por exemplo, temos um cérebro dividido em duas partes contidas uma em cada lado de nossa cabeça; dois pulmões contidos um em cada lado do peito; dois olhos, um em cada lado do rosto; uma boca e um nariz simétrico no meio do rosto e outros exemplos, contudo, curiosamente não temos dois corações, mas apenas um.

Um homem contém dois homens: um à direita que se parece exatamente com o outro à esquerda. Depois de notar que há um braço do lado direito e outro do lado esquerdo, uma perna à direita e outra à esquerda, ela poderia ir adiante e ainda encontrar de cada lado o mesmo número de dedos nas mãos, o mesmo número de dedos nos pés, olhos geminados, orelhas geminadas, narinas geminadas e até lobos do cérebro geminados. No mínimo ela tomaria o fato como lei; e depois quando encontrasse um coração de um lado, ela deduziria a presença de outro coração do outro lado. E exatamente nesse momento, no ponto em que se sentisse mais segura de estar certa, ela estaria errada. [16]

Exatamente dessa forma, Chesterton busca mostrar que dizer que os aparentes “paradoxos” do cristianismo são provas de sua invenção, é tão infantil quanto mostrar que o fato de termos apenas um coração e não dois é prova de que nosso corpo não existe, pois o mesmo não obedece a lei da própria lógica que ele estabelece.

Ora, essa é exatamente a reivindicação que venho fazendo para o cristianismo. Não simplesmente que ele deduz verdades lógicas, mas que quando de repente se torna ilógico, ele encontrou, por assim dizer, uma verdade ilógica. Ele não apenas acerta em relação às coisas, mas também erra (se assim se pode dizer) exatamente onde as coisas saem erradas. [17]

Com isso, podemos entender que a Teologia Cristã apresenta verdades aparentemente ilógicas, mas isso não as invalida enquanto verdades, pois assim como os contos de fadas, o Cristianismo apresenta verdades aparentemente ilógicas a primeira vista, mas com uma diferença, que como diz C. S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples: “(…) apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem”. [18]

Continuando com o mesmo raciocínio, vamos dar ver o que diz Lewis. Em seu livro, O Problema do Sofrimento, o autor sugere que há um equívoco em nossa compreensão de termos como “bom”, “todo-poderoso” e até mesmo o termo “feliz”, pois se a nossa compreensão a respeito desses termos for a única possível, então invalidamos todos os argumentos sobre o problema do mal, pois, usando as palavras do próprio autor: “(…) se os sentidos mais comuns ligados a essas palavras são os melhores, ou os únicos possíveis, então o argumento não é passível de ser respondido”.[19] Para exemplificar, o autor se utiliza do exemplo de uma criança que desenha um círculo. Obviamente, o círculo da criança não será um círculo perfeito, mas ainda assim será um círculo. Da mesma forma nosso entendimento do que é o mal se assemelha ao círculo feito por essa criança.

A “bondade divina” difere da nossa, mas não é absolutamente diferente: ela difere da nossa não como o branco do preto, mas como o círculo perfeito se distingue da primeira tentativa de uma criança em desenhar uma roda: quando a criança aprende a desenhar, ela saberá que o círculo que agora consegue fazer é justamente aquele que estava tentando reproduzir desde o começo. [20]

Embora saibamos o que seja o mal, não o entendemos perfeitamente. Temos uma ideia do bem e do mal pelo o que o próprio Lewis, em seu livro Cristianismo Puro e Simples irá chamar de Lei Natural, ou seja, a noção que todo o ser humano tem de certos aspectos morais como não matar, não mentir, não roubar e etc.

Por fim, podemos concluir que a soberania e a atemporalidade se encaixam não somente na questão dos paradoxos do cristianismo levantado por Chesterton, como também podemos entender nisso uma ambiguidade assim como a sugerida por Lewis. Dessa forma, os que concluem que a fé cristã resulta em um determinismo, devem igualmente, por lógica, admitir que Cristo só poderia ter uma de das duas naturezas, que milagres tem explicações naturais e que temos dois corações.

Notas:

1. “Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original (…)” CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008, p. 22.

2. Romanos 3:23.

3. Santo Agostinho elabora a ideia de que existem dois tipo des mal, o mal praticado e o mal sofrido. O mal ao qual Evódio se refere é o mal praticado.

4. “Here (The Problem of Pain) Lewis elaborated on Augustine’s “classical” view of original sin, wich, simply put, links Adam’s choice to sin (as a result of pride) with the perpetual sinfulness of the human race.” SCHULTZ, Jeffrey D.; WEST, John G. Jr. The C. S. Lewis Readers’ Encyclopedia. HarperCollins, 1998, p. 164.

5. “Fairy [fada], como substantivo mais ou menos equivalente a elf [elfo], é uma palavra relativamente moderna, quase não usada antes do período Tudor. A primeira citação no Oxford Dictionary (a única antes de 1450) é significativa. Foi estraída do poeta Gower: as he were a faierie [como se ele fosse uma fada]. Mas não foi isso que Gower disse. Ele escreveu as he were of faierie, “como se ele fosse de Faërie [Reino Encantado]”. TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 8.

6. “O país das fadas nada mais é do que o país ensolarado do bom senso. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; assim, para mim pelo menos, não era a terra que criticava a Elfolândia, mas a Elfolândia que critivaca a terra.” CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008, p. 82.

7. “É muito fácil ver por que uma lenda é tratada, e assim deve ser, mais respeitosamente do que um livro de história. A lenda geralmente é criada pela maioria do povo da aldeia, gente equilibrada. O livro geralmente é escrito pelo único homem da aldeia que é louco.” Ibdem, p. 80.

Referências:

[1] PLANTINGA, Alvin. Deus, a Liberdade e o Mal. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2012, p. 19.

[2] Idem.

[3] Ibdem, p. 22.

[4] Santo Tomá de Aquino. Sobre o Mal. Rio de Janeio: Sétimo Selo, 2005, p. 9-11.

[5] Santo Agostinho. Confissões. São Paulo: Ed. Paulus, 2013, p. 195.

[6] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 58-9.

[7] Santo Agostinho. Confissões. São Paulo: Ed. Paulus, 2013, p. 192.

[8] Ibdem, p. 191-2.

[9] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 60.

[10] Santo Agostinho. Confissões. São Paulo: Ed. Paulus, 2013, p. 179.

[11] Ibdem, p. 187.

[12] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 56.

[13] Santo Agostinho. Confissões. São Paulo: Ed. Paulus, 2013, p. 35.)

[14] CHESTERTON, G. K. O Homem Invisível. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1997, p. 18.

[15] Santo Agostinho. O Livre-Arbítrio. São Paulo: Ed. Paulus, 1995, p. 25-6.

[16] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008, p. 135-6.

[17] Ibdem, p. 137

[18] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 55.

[19] ______. O Problema do Sofrimento. São Paulo: Ed. Vida. 2013, p. 33.

[20] Ibdem, p. 47.

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Sobre Beleza

Hoje [23/06/2016] vi uma postagem no facebook com uma foto[1] que parecia ser de uma casa, ou um Pub bem “caseiro”. Não era um lugar feio, na verdade, era até aparentemente aconchegante. Na legenda da foto, havia uma frase que me gerou certo incomodo e me fez perceber que se tratava de uma Igreja. A frase era a seguinte: “Por que a igreja tem que ter cara de ‘igreja’?”

Eu entendo perfeitamente que a Igreja não é um prédio, mas as pessoas que fazem esse prédio ser o que é. Entendo a dimensão espiritual da Igreja, de ser o Corpo do Cristo ressurreto. Eu não só entendo isso, como concordo plenamente. O que me incomoda, é que nossa geração está tão influenciada pelo materialismo e tão preocupada com contextualização, que se esquecem dos significados simbólicos. É uma preocupação gigante com o significado espiritual e metafísico que se esquecem do estético e do simbólico.

Por que a Igreja tem que ter cara de Igreja? Simplesmente porque a estética não só faz parte da nossa vida cotidiana e da nossa natureza, como também faz parte da nossa religião. Nossa geração é extremamente binária e dualista, pois enxerga apenas dois lados nas mais diversas situações e são extremamente apressados em julgar o outro lado como 100% errado. Eles buscam se desvencilhar das

Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

correntes da tradição por vontade de se contextualizarem e serem contemporâneos, como dizia a legenda da foto, para assim, voltarem a ser como a Igreja Primitiva. Mas a tradição nada mais é do que a “contextualização” da Igreja Primitiva no decorrer da história de forma que também mantivesse sua história. Isso não quer dizer que essa contextualização foi perfeitamente boa, não, cometemos diversos erros durante a história e continuamos a cometer erros parecidos e as vezes iguais, e quando digo nós, estou me referindo tanto aos cristãos ultra-conservadores, os conservadores normais e o modernos. Todos erram de alguma forma. Uns por insistirem em tradições datadas e descontextualizadas, outros por muitas vezes tentarem resgatar aspectos da Tradição Cristã que não devem ser resgatados pois foram para suas respectivas épocas e também outros por ignorarem totalmente a tradição.

Por que a Igreja tem que ter cara de Igreja? Pois como já disse uma das personagens do escritor russo, Fiódor Dostoiévski, em seu livro, O Idiota: “A beleza salvará o mundo”. Acredito eu, assim como a Tradição Cristã pré e pós-Reforma, que a depravação do homem seja total, mas não por ter apagado totalmente a Imagem de Deus no homem, mas por tê-la afetado e à alcançado por completa mas não à destruído completamente. Por acreditar nessa depravação total proveniente da Queda narrada em Gênesis 3, acredito que tanto o intelecto quanto a criatividade tenham sido afetados pelos efeitos da Queda, porém, acredito que a estética não se encaixe nisso, embora, se eu estiver certo, acredito também que apenas a compreensão da estética tenha sido afetada não a estética em si, pois entendo que a estética não depende do homem, mas é apenas evidenciada por ele, vou explicar. Nossa criatividade ainda é reflexo da Imagem de Deus, pois enquanto ele é criador, nós somos criativos, contudo, nossa criatividade está afetada pela Queda, então, sem a ajuda de Deus ela apenas refletirá os nossos ídolos. Igualmente, nosso intelecto ainda é reflexo da Imagem e semelhança de Deus, mas ele está afetado pela Queda, portanto, sem a ajuda de Deus ele apenas se voltará para nossos ídolos. Já na questão estética, acredito ser diferente, pois mesmo caídos, nossas construções e obras de artes estéticas sempre refletem e sempre refletiram algo transcendente [2]. Ainda que nossos prédios sejam demasiadamente cinzas e cúbicos, eles claramente apontam para algum lugar além do natural, mostrando que internamente, o ser humano busca algo acima dele, mesmo que implícito para ele. Contudo, muitas vezes nossa noção de estética possa ser um tanto quanto peculiar, por exemplo, quando conhecemos figuras como o curioso Marcel Duchamp, que reforça a minha ideia de a nossa visão estética ter sido afetada pela Queda mas não a estética em si por ela não ser própria do ser humano, mas transcendental.

Entendendo então, que até mesmo um prédio extremamente sem graça e extremamente vazio de significado, tem um significado implícito, imagine então uma Igreja? Ao meu ver, é impossível não me deparar com uma catedral, ou as vezes até mesmo uma simples capela de alguma cidade pequena e não pensar que lá é um lugar diferente dos outros em volta. Novamente, entendo que é apenas um

Catedral da Sé em São Paulo

Catedral da Sé, em São Paulo

prédio e que espiritualmente não tem nada de diferente, mas esteticamente e simbolicamente ele tem TODA a diferença. Quando paramos para estudar um pouco da “teologia arquitetônica” e percebemos a riqueza de significados que existem em uma Igreja, como a própria Catedral da Sé em São Paulo, por exemplo, é impossível não nos maravilharmos, e quando se trata de um cristão que tem a sua mente modificada pelo poder do Espírito Santo, é impossível este não ter os seus pensamentos voltados para Deus, pois tudo envolta dele está se voltado para Deus e não para ele.

Por que a Igreja tem que ter cara de Igreja? Por que o ser humano precisa de algo visível e palpável para “levá-lo” até Deus, mesmo que não literalmente, mas algo que ajude o seu ceticismo natural, como já identificou Mircea Eliade, principalmente em seu livro O Sagrado e o Profano. Quando tudo a nossa volta nos aponta para Cristo e para o seu sacrifício, como vemos nas antigas Igrejas, automaticamente somos forçados a juntos com toda essa “sub-criação”, nos voltarmos para o verdadeiro criador e adorá-lo. A beleza salvara o mundo, porque a beleza é apenas o reflexo daquele que é verdadeiramente belo.

Antes, eramos atraídos por uma Igreja, pois de longe víamos que era alí onde se encontravam os Cristãos, o prédio era reconhecível pois era – ou pelo menos deveria ser – assim como os cristãos, diferentes do contexto em que esse encontravam. Hoje em dia, as Igreja são simples prédios iguais a todos os outros, e infelizmente, exatamente igual a nós, os famosos cristãos modernos. O prédio que a Igreja se encontra, deve ter cara de Igreja, assim como a Igreja que está dentro do prédio deve ter a cara de Cristo.

Notas:

[1] http://migre.me/ubuaP

[2] Quanto a isso, aconselho o livro do filósofo britânico, Roger Scruton, Beleza, e seu documentário, Why Beauty Matters, produzido pela BBC e que pode ser assistido neste link: http://migre.me/ububi

Obs: Esse texto não é uma crítica contra a Igreja específica da foto em que citei, até porque não conheço essa Igreja e nem ninguém que a frequente. Apenas quis publicar essa reflexão gerada pela foto, só isso.

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Sobre a Poética dos Evangelhos

Em seu livro, Anatomia da Crítica, logo no primeiro capítulo onde fala a respeito da Teoria dos Modos, Northrop Frye retorna à clássica Poética de Aristóteles, onde o mesmo fala sobre as diferenças nas obras de ficção causadas pelas diferentes elevações de personagens. De forma mais simples, Aristóteles identifica cinco diferentes espécies de personagens que definem o estilo da história, que seriam: o herói mítico, o herói de romance, o herói líder, o herói comum e o herói irônico. O que pretendo observar aqui é que enquanto Aristóteles entendia que cada personagem poderia ter apenas uma dessas características, o Cristo Bíblico engloba todas elas. Ainda em Anatomia da Crítica, Frye diz que a imitação da natureza na ficção produz não a verdade ou a realidade, mas a plausibilidade [1], ecoando assim as ideia quanto a plausibilidade do Mitos enquanto verdades parciais que Lewis irá chamar em seu livro Alegoria do Amor de simbolismo ou sacramentalismo [2] e Tolkien em seu ensaio Sobre Histórias de Fadas [3] irá entender como um efeito da Sub-criação ou Faërie, ou poderíamos chamar de um Escape, onde o Mito, ou no caso os contos de fadas, apontariam para uma verdade. No presente texto, mostrarei que as diferentes personagens que Aristóteles identificou apontavam para uma personagem histórica que englobou todas elas em uma única pessoa divina. Tendo isso em mente, vamos partir para o ponto principal deste texto.

1. Herói Mítico

O primeiro tipo de personagem que gostaria de observar é a personagem própria de um mito. Em sua Poética, Aristóteles identifica essa personagem como sendo superior em espécie tanto aos outros homens quanto ao ambiente ao qual se encontra. Nesse caso, o herói será um ser divino e nitidamente diferente da realidade apresentada na história. Podemos observar isso quando Deus aparece para o profeta Isaías no capítulo 6 de seu livro. Deus aparece para ele de uma forma completamente diferente de tudo que Isaías – assim como nós – estava acostumado, deixando bem claro que aquela personagem que estava aparecendo não era humana e nem fazia parte daquela realidade onde ele se encontrava, pois só a sua presença já faz Isaías perceber que se trata de Deus e o faz declarar em alta voz: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos [4].

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a cauda do seu manto enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um visao-isaias-serafinstinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas  voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. [5]

Da mesma forma, encontramos essa característica divina em Cristo. Podemos observar quando Ele apenas com um simples, “Cale-se! Acalme-se”, fez com que a tempestade que assustava os seus discípulos imediatamente parasse, levando-os a perceber que não era um simples homem que estava lá com eles.

Quem é esse homem, a quem até o vento e o mar obedecem? [6]

Ou então, quando vemos o relato do Evangelho segundo São Mateus, onde Cristo aparece aos seus discípulos durante a madrugada, andando por sobre as águas. Imediatamente, os discípulos se assustam, pois nitidamente o que andava por sobre as águas não era humano, não havia a possibilidade de um homem andar por sobre as águas como aquele homem estava fazendo.

Alta madrugada, Jesus dirigiu-se a eles, andando sobre o mar. Quando o viram andando sobre o mar, ficaram aterrorizados e disseram: “É um fantasma!” E gritaram de medo. Mas Jesus imediatamente lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo![7]

Por fim, podemos nos lembrar dos relatos do Evangelho segundo São João, onde o mesmo narra a aparição de Jesus ressurreto para os discípulos, mas em especial para São Tomé. Além de ter ressuscitado, o que já é extremamente “não-humano”, Cristo ainda aparece para os discípulos em meio ao caos que havia se tornado aquela região onde eles se encontravam, pois enfim haviam acabado com o “líder rebelde” que estava causando uma certa “bagunça”. Com portas e janelas trancadas, Cristo entra na casa onde se encontravam seus discípulos. Acho interessante algo que C. S. Lewis diz em um de seus livros quanto a essa passagem. Lewis diz que Cristo estava naquele momento tão real em seu corpo ressurreto e glorificado, que a nossa realidade era para ele irreal o suficiente para atravessar as paredes.

Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês! ” E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”. Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu![8]

Embora Cristo fosse realmente Deus, ele era um ser de certa forma paradoxal, assim como veremos no próximo ponto.

2. Herói de Romance

O segundo tipo de personagem é, como diz Frye, o típico herói de romance* , ou seja, uma personagem superior em grau** aos outros homens e ao seu ambiente, onde a personagem realiza ações maravilhosas, mas continua sendo em espécie igual aos outros. Se voltarmos os olhos rapidamente para o clássico da Literatura Fantástica, O Senhor dos Anéis, veremos em Frodo essas características como o simples Hobbit que recebeu a tarefa mais difícil de todas, destruir o “fardo” da Terra-média, o Um Anel. Frodo é um simples Hobbit, mas com um força que os Hobbits normalmente não tem. Semelhante a Frodo, temos Bilbo Bolseiro, no livro que antecede O Senhor dos Anéis, O Hobbit. Embora Bilbo não tivesse uma tarefa tão difícil quanto a de Frodo – deixando claro que a tarefa de Bilbo foi fácil apenas em comparação com a de Frodo – eletambém fez coisas que os outros não fariam. Ou podemos lembrar do meu momento preferido de O Retorno do Rei, terceiro e último livro de O Senhor dos Anéis, quando Sam e Frodo estão cheios de medo e chegando ao fim de sua jornada e então Sam olha para os céus, e rapidamente vê uma Estrela por entre as nuvens que faz com que a esperança e a coragem dele retornem e por conta disso, mais a frente, vemos Sam de forma heróica carregar Frodo até o interior da Montanha da Perdição, ecoando assim os passos de Simão Cirineu ajudando Cristo a carregar seu fardo, a Cruz.

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Lá, espiando por entre os restos de nuvens sobre uma rocha pontiaguda nas montanhas, Sam viu uma estrela branca reluzir por uns momentos. Sua beleza arrebatou-lhe o coração, quando desviou os olhos da terra desolada, e ele sentiu a esperança retornar. Pois como um raio, cristalino e frio, invadiu-o o pensamento de que afinal de contas a Sombra era apenas uma coisa pequena e passageira: havia luz e uma beleza nobre que eram eternas e estavam além do alcance dela. (…) Agora, por um momento, sua própria sorte, e até a de seu mestre, deixaram de preocupá-lo. Sam voltou às sarças e se deitou ao lado de Frodo, e, deixando de lado todo o medo, mergulhou nem sono profundo e despreocupado. [9]

Agora, se voltarmos os nosso olhos para Cristo, veremos que ele igualmente se encaixa nesse tipo de personagem, basta olharmos para os milagres e para as reações que o cercavam. Um dos maiores paradoxos do Cristianismo é a dupla natureza de Cristo, que aparecera mais algumas vezes neste texto. A Tradição Cristã entende que Cristo seria perfeitamente homem e perfeitamente Deus, ou seja, ele não possuiria apenas a natureza humana, mas também a divina e nenhuma delas era maior que a outra. Isso, como muitos alegam, não foi um simples tentativa da Igreja de sustentar a existência de Cristo enquanto um ser divino, na verdade, não acredito que a Igreja conseguiria inventar essa ideia e sustenta-la sem furos por mais de dois mil anos. Na verdade, as duas naturezas de Cristo englobam todo um significado teológico que nos faria voltar até o Antigo Testamento, e não é a minha intenção nesse texto. Um dia talvez escreva algo sobre isso, mas não acredito que eu consiga.

Bom, o ponto que quero chegar, é de que Cristo era visivelmente humano e todos os entendiam e o conheciam como tal, fazendo com que ele fosse em grau, igual a todos os homens, embora ao mesmo tempo, em espécie, ele fosse divino e portanto, diferente de todos os homens. Sei que é complexo, mas creio que vocês irão entender onde quero chegar.

Em seu primeiro milagre, onde Cristo transformou a água em vinho, percebemos que as pessoas não esperavam que algo realmente acontecesse, para eles, era apenas um homem que por algum motivo pediu para encherem 6 potes com água, quando na verdade as pessoas queriam mais vinho. Mas ao receber os potes, acontece o primeiro milagre de Cristo, a transformação da água em vinho. Como já era de se esperar, aqueles que presenciaram esse acontecimento, ficaram sem saber o que fazer, pois acabaram de ver um homem comum transformar na frente deles, água em vinho!

E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes. Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo, E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. [10]

Após esse primeiro milagre, Jesus fez muitos outros e alguns deles estão relatados nos quatro Evangelhos, mas o mais interessante disso tudo, e é onde quero chegar para que possamos seguir para o ponto três, é que mesmo diante de tantos milagres e de algumas declarações um tanto escandalosas para os Judeus da época, como podemos ver no Evangelho segundo São João no capítulo 8, no versículo 58, Jesus só foi reconhecido como Cristo, ou seja, como um ser realmente divino, apenas no capítulo 16 do Evangelho segundo São Mateus! O que nos mostra que ele era homem como todos e que todos o reconheciam como homem e só depois de algum tempo andando com as pessoas é que ele foi reconhecido como um ser divino e diferente de nós em espécie, embora ainda também diferente em grau, como já disse algumas vezes.

E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. [11]

3. Herói Líder

O terceiro tipo de personagem levantado por Aristóteles é o Líder, ou seja, ele é superior em grau aos outros homens, mas não ao ambiente no qual se encontra. Esse herói possui sabedoria, autoridade, mas está sujeito a sociedade e as ordens naturais. Entendo que muitos iram torcer o nariz com essa parte, pois reconheço que é uma característica de Cristo um tanto difícil, pois já gerou alguns problemas na história da Igreja, como alguns que atribuíram a Cristo – e alguns ainda atribuem – o papel de um grande mestre da moral, apenas isso. Eu compreendo e acredito que Ele não era apenas um grande mestre da moral, contudo, entendo que Ele era também um grande mestre da moral, e é assim que quero aborda-lo neste ponto, não como somente um mestre, mas também como mestre. Embora seja bem difícil de tratar no sentido teológico, acredito que seja bastante fácil no sentido literário. Afinal, não precisamos ir muito longe para ver Cristo se mostrando como um mestre, um líder, basta olharmos para o sermão do monte e veremos um nítido líder. Contudo, acho que podemos, ainda que bem superficialmente, nos aprofundar um pouco mais.

Há um momento bastante conhecido da vida de Jesus, que acho interessante analisarmos, ainda que rapidamente. No relato do Evangelho segundo São Mateus, no capítulo 26, vemos o episódio da mulher adultera que estava para ser apedrejada e Jesus a ajuda mostrando que todos são iguais a ela, ou seja, pecadores. Um dos princípios do Cristianismo é de que o homem é totalmente mau e não pode por si só fazer algo totalmente bom, pois para isso, ele precisa da ajuda de Deus, mesmo que tal homem não acredite nEle.

A real intenção dos Escribas e dos Fariseus quando chegaram até Jesus com a mulher adultera, era fazer Jesus cair em uma “pegadinha teológica”, para que estes pudessem ter algum motivo para prende-lo, pois Jesus apresentava para o povo, algo que na Teologia chamamos de “Reino de cabeça para baixo”, pois Jesus colocava tudo aquilo que para nós é bom ou comum e mostrava que era na FalaJesus#01_thumb[2]verdade o contrário (Mt 5:3, 4; 20:26, 28), afinal, como o próprio Cristo disse, segundo o Evangelho de São João, nós não somos do mundo (17:16), portanto, devemos seguir as regras e leis do nosso verdadeiro mundo. No entanto, os Escribas e os Fariseus falharam com sua “pegadinha”. Quando perguntado por um dos acusadores se eles deveriam seguir a Lei de Moisés – assim como todos na época seguiam –, que mandava apedrejar até a morte uma mulher pega em adultério, Jesus de forma surpreendente e inesperada, se agacha e em silêncio começa a escrever na terra. Em seguida, após esse provável momento atormentador, Jesus rompe o silêncio e diz: Aquele que entre vocês não tem nenhum pecado, que seja o primeiro a lançar a pedra contra ela [12]. Após isso, Ele simplesmente volta a se agachar e a escrever com o dedo na terra. Jesus, como um verdadeiro e sábio líder, mostra que aqueles que tentavam acusar aquela mulher, eram igualmente merecedores de punição igual a ela e que não tinham o direito de se levantarem como juízes diante dela. Por fim, Jesus virá para a mulher e diz de forma simples e direta, como um mestre que ensina sua aluna:

E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. [13]

Jesus constantemente, de forma muito sábia, se utilizava desses “joguinhos”, onde ele pega alguma pergunta ou problema levantado para ele e o devolve para aquele que o questionou, assim como vemos na parábola do bom Samaritano.

4. Herói comum

O herói comum, é assim chamado porque ele realmente é comum, ou seja, ele é igual a nós em todos os aspectos e nele não existe nada de especial, assim como Winston Smith, o protagonista de 1984 de George Orwell, que podemos ver seu medo, sua dor, seus desejos e suas alegrias e nos identificarmos, não por termos os mesmo desejos, mas por sabermos que estamos suscetíveis a eles da mesma forma. Ou como Edmundo, personagem de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, de C. S. Lewis, que é humano até demais, pois ele nos mostra a parte ruim do ser humano. Edmundo é o responsável por trair seus irmãos e quase acabar com Nárnia, por causa de docinhos que a Feiticeira Branca lhe deu. O herói comum é uma espécie de “personagem espelho” onde podemos nos identificar nele.

A um episódio da história de Jesus, que eu particularmente gosto bastante, que é a morte de Lázaro. Os Evangelhos se referem a Lázaro como sendo amigo próximo de Jesus, São João, em seu Evangelho, mostrá Maria, irmã de Lázaro, referindo-se a ele para Jesus como “aquele que tu amas”. Em dado momento Jesus é avisado pela irmã Lázaro que ele está doente, e a essa altura, Jesus já estava famoso por seus milagres, por isso vieram chamá-lo para que curasse Lázaro, caso o contrário, o mesmo morreria. Jesus deixou que as coisas andassem como deveriam andar e não foi encontrar Lázaro de imediato como lhe haviam pedido. Alguns dias depois, Cristo vai até onde Lázaro estava, mas edmundo-actor-adorable-aslan-Favim.com-667224_largeeste já estava morto a mais ou menos quatro dias. Ao chegar, vemos que Jesus começa a falar de forma mais seca e direta. Particularmente – e isso é minha opinião pessoal, o que quer dizer que não é nada teológica ou que tenha alguma base, é apenas um “achismo” – acho que Jesus talvez estivesse um pouco inquieto com a situação, pois no final das contas, um amigo dele estava morto. Sabemos que o próprio Cristo tinha acabado de dizer nos versículos 25 e 26 do capítulo 11 do Evangelho de São João, que Lázaro haveria de ressuscitar, mas devemos nos lembrar de que mesmo que Ele fosse totalmente Deus, Ele ainda era totalmente homem, e portanto, sujeito as emoções humanas, o que nos leva ao trecho que exemplifica o herói comum em Cristo, onde vemos as emoções humanas diante de um nítida pressão ao seu redor e da morte de um amigo sendo expostas.

Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. Jesus chorou. Disseram, pois, os judeus: Vede como o amava. [14]

Aqui vemos um Jesus humano que não estamos acostumados a ver, mas que existia, pois está nas Escrituras. Vemos um Deus que sofre e se compadece da dor de sua criação, ou, assim como já disse o teólogo Alemão, Jürgen Moltmann: “Um Deus que não pode sofrer é mais pobre do que qualquer ser humano. (…) quem é incapaz de sofrer também é incapaz de amar” [15]. O Filósofo Nicholas Wolterstorff chega a dizer o seguinte em seu livro Lamento:

Quem não percebe o sofrimento de Deus não percebe o seu amor, pois Ele é o amor que sofre. Assim, sofrer é o centro, é o sentido das coisas. Sofrer é o sentido do nosso mundo, porque o sentido é o amor, e este sofre. [16]

5. Herói Irônico

Por fim, analisaremos o que considero ser um dos aspectos mais paradoxais, que é a questão do herói irônico na pessoa de Cristo. O herói irônico é aquela personagem que em força e intensidade é inferior a nós, ela é aparentemente fraco em todos os sentidos. Como exemplo, podemos olhar para o auterego do famoso Homem de Aço, o Clark Kent, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, que é um verdadeiro covarde que não tem coragem nem para matar um mosca e não enfrenta ninguém. Entendo que Clark Kent é assim, pois seus criadores, de forma genial, quiseram mostrar a fraqueza e o quão pequeno é o ser humano diante do desconhecido, pois Kent é nada mais do que a forma que o Superman enxerga a humanidade. Por sua vez, Cristo se mostra duas vezes, pelo menos que eu consiga me lembrar, como um herói irônico. Primeiramente na encarnação e depois em sua morte. Sei que teologicamente, esses dois acontecimentos são grandiosos, mas se pararmos para analisarmos bem, veremos que os dois foram uma verdadeira humilhação para Ele. A encarnação foi uma humilhação por ser um Deus santo se esvaziando e se fazendo homem, ou seja, o Criador literalmente descendo até o nível de sua criação corrupta. E sua morte, por ter sido a morte mais humilhante da época, onde ele era nitidamente inocente e também por ser um Deus se sujeitando a morte, o que é um absurdo, pois mesmo no Ragnarök, a ruína dos deuses Nórdicos, eles não simplesmente se entregam a destruição total, mas lutam bravamente, embora não exista nenhuma possibilidade de escapatória.

Quando observamos os primeiro versículos do Evangelho segundo São João, vemos o autor afirmando que o Verbo se fez carne. Mas que verbo é esse? Se voltarmos para o início da Bíblia, mais especificamente para o livro de Gênesis, vamos perceber que quando Moisés fala sobre a criação, vemos que ele descreve Deus criando todas as coisa pela fala, ou seja pelo Verbo***. Cristo estava desde o começo presente na criação e tudo apontava para ele, mas é curioso que o Deus três vezes santo tenha se encarnado em uma criação caída e corrupta, é curioso ver a humilhação que ele se expôs e que nenhum outro deus, pelo menos das mitologias que conheço, se rebaixou a tanto, mesmo por amor. O lugar de um deus é sempre diferente de sua criação não se rebaixando a ser igual a ela. Ainda que por amor, não é uma atitude que, com a mais firme certeza, NENHUM de nós teria. E como o herói irônico tem a nós como parâmetro, podemos facilmente dizer que Cristo também se encaixa, de certa forma nessa categoria por apresentar características que nós nunca teríamos ou repetiríamos. A encarnação do Verbo foi uma humilhação extremamente irônica, assim como a sua morte.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (…) E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós. [17]

No livro do Profeta Isaías, no famoso capítulo 53 onde o mesmo fala sobre o servo sofredor, nós enquanto cristãos, diferente da interpretação Judaica, entendem que essa passagem – assim como muitas outras do Antigo Testamento – se refere a Cristo. Nesse capítulo, temos uma descrição um tanto atormentadora, quando pensamos que ela se refere a um Deus.

Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas Noe07dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. [18]

Como disse, esse é um trecho que de certa forma é até bem romântico. Ver alguém com essas características tão sofridas, se entregando assim por outra pessoa, é algo de se admirar. Mas se pensarmos que esse alguém é o próprio Deus encarnado, nos deixa – ou pelo menos deveria – assustados! Por que um deus se submeteria a isso? Ele poderia ter feito tudo de forma diferente, mais fácil. Por que se humilhar tanto? Nenhum de nós se nunca iria se rebaixar tanto, nem por amor. Cristo, de certa forma, se mostra como mais fraco do que nós, assim como o herói irônico, mas, de forma irônica – desculpem-me o trocadilho infame – e muito paradoxal, ele no mesmo momento é também um herói mítico, assim como observamos no começo.

Um Deus que se sujeita a morte para salvar sua criação, que por sua vez, se estivesse no lugar dEle, simplesmente destruiria tudo e todos. Um Deus que se faz fraco e pequeno, para mostrar o quão grande Ele é. “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3:30).

Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. [19]

Entendem o ponto que estou querendo chegar? Não era para ser assim! O Cristo que ressuscitou, poderia ter alterado tudo lá em Gênesis 3 e ter deixado tudo normal de novo. Mas quando vamos para o livro de Apocalipse, no capítulo 13, no versículo 8, vemos que Cristo, o cordeiro de Deus que tirá o pecado do mundo, já estava crucificado em favor daqueles que haveriam de crer, desde antes da fundação do mundo. Que amor é esse que chega ao ponto de se humilhar ao se encarnar e chegar ao ponto de morrer pela sua criação? Que ironia um Deus se vestir de mortalidade! Mas que maravilha ver que esse herói irônico é também, um herói comum, assim como também é um herói de romance; que ele é um líder, assim como também bem é um herói mítico, um Deus.

Notas:

* Ao utilizar a palavra “romance“, Northrop Frye não se refere a ficção em prosa [“novel“, em inglês], mas a um Mytho, ou seja, um mundo idealizado. Poderíamos, por fins explicativos, relacionar com contos de fadas, segundo o entendimento de escritores como George MacDonald, G. K. Chesterton, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, etc.

** Apenas em grau, não em espécie, como o Herói Mítico do primeiro ponto.

*** Esse Verbo que o Apóstolo João cita, vem do grego Logós, que por sua vez significa algo como a palavra falada ou a palavra escrita. Embora tenha um significado bem mais profundo do que simplesmente fazer uma referência a Cristo como sendo Deus e portanto criador de todas as coisas. Poderíamos atribuir a palavra Logós, a ideia vinda da filosofia grega de totalidade do conhecimento, algo como o mundo das ideias platônico, onde todas as coisas se encontram de forma perfeita. Quando o Apóstolo se refere a esse Logós, ele diz também que toda essa totalidade do conhecimento, toda essa perfeição existente no mundo das ideias, se fez verdade terrena, se fez carne e habitou entre nós.

Referencias:

[1]FRYE, Northrop. Anatomia da Crítica. São Paulo: É Realizações Editora, 2014, p. 167.

[2] LEWIS, C. S. Alegoria do Amor. São Paulo: É Realizações Editora, 2012, p. 56.

[3] TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.

[4] Isaías 6:5.

[5] Isaías 6:1, 4.

[6] Marcos 4:41.

[7] Mateus 14:25, 27.

[8] João 20:26, 28.

[9] TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 196.

[10] João 2:6, 10.

[11] Mateus 16:13, 16.

[12] João 8:7.

[13] João 8:10,11.

[14] João 11:32, 36.

[15] MOLTMANN, Jürgen. The Crucified God. London: SCM Press, 1974, pág. 222 in: MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Ed. Shedd Publicações, 2014, pág. 329.

[16] WOLTERSTORFF, Nicholas. Lamento. Viçosa, MG: Ultimato, 2007, p. 90.

[17] João 1:1;14.

[18] Isaías 53:3, 5.

[19] Isaías 53:7.

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Sobre Tolkien e a teodiceia de O Silmarillion

Obs.: O texto a seguir é um resumo de um projeto em andamento previsto para ser publicado no início de 2017, portanto, não se aprofundara tanto nos assuntos propostos, assim como algumas perguntas que serão levantadas neste texto, serão respondidas e aprofundadas apenas no trabalho final.

Neste texto, buscaremos levantar algumas perguntas e diálogos em cima do Imaginarium do Professor Tolkien relacionados ao problema do mal, pois assim como o Professor Carlos Caldas, entendemos que, O Silmarillion, é uma Teodiceia, ou seja, uma explicação para o problema do mal [1].Dito isso, podemos observar semelhanças entre a criação de , que o próprio Tolkien se referiu como sendo o mito de sua sub-criação [2], e a criação do mundo, narrada nos primeiros capítulos do Gênesis.

O-Silmarillion

Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, Gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. [3]

Assim como na narrativa Bíblica, o mito de Tolkien nos apresenta apenas um deus soberano e que ele se encontra fora do tempo, em outros trechos, podemos encontrar outros atributos semelhantes ao Deus Bíblico como ser pré-existente, criador e criativo, não se revelava por completo, é soberano sobre sua criação, se revela parcialmente através das coisas criadas e mais alguns outros. Podemos também identificar os Ainur como correspondentes aos anjos da mitologia cristã. Outro ponto interessante para prestarmos atenção, é que toda a criação é gerada a partir de temas sugeridos pelo próprio Ilúvatar, nos remetendo a ideia da Teologia Paulina que diz que tudo nEle subsiste (Cl 1:17).

O Professor e Teólogo Carlos Caldas, cita que a ideia da música ser divina está presente em uma antiga tradição rabínica, o que torna plausível a influência não só da tradição rabínica e judaica, como da tradição cristã sobre a sub-criação de Tolkien. 

Parece que Tolkien e Lewis encontram inspiração para esse ponto (a criação do mundo pela música) não em mitologias nórdicas ou celtas, mas em uma antiga tradição rabínica, que diz ser a música uma linguagem divina. Ainda que nenhuma tradição rabínica afirme explicitamente que Deus criou o mundo pela música, é razoável inferir que a fala de Deus se expressou com musicalidade. Com criatividade, Tolkien combina um pano de fundo escandinavo com uma antiga tradição da sabedoria judaica. Essa mescla, assaz curiosa, é um louvor ao Criados. [4]

Voltando para O Silmarillion, vemos que Tolkien descreve um Ainur que se rebela contra Ilúvatar, pois desejava possuir a chama imperecível, que dava a quem a possuía, a possibilidade de trazer seus pensamentos a realidade. Melkor se rebela contra Ilúvatar por um desejo de ser igual a deus, semelhante ao que ensina a Tradição Cristã a respeito da queda de Satanás.

Tolkien diz o seguinte em, O Silmarillion:

Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. [5]

Aqui podemos perceber, que além de um aparente diálogo com a Tradição Cristã quando a queda de Satanás, encontramos também a ideia do mal como corrupção de algo primariamente bom, no caso, Melkor, um Ainur que por desejar a chama imperecível para assim ser como Ilúvatar, corrompeu-se e se tornou um ser mal.

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A ideia do mal como corrupção é presente na Teologia e na Filosofia de C. S. Lewis, que partilhou de uma longa amizade com Tolkien e que explicitamente se influenciaram mutuamente na criação de suas estórias. Em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, Lewis elabora sua ideia a respeito da existência do mal. Lewis entendia que o mal não era algo em si, mas uma consequência de um agente moralmente livre. Para Lewis, o mal era a corrupção gerada pela escolha errada de alguma criatura.

Para ser mau, ele tem de querer algo de bom e buscá-lo de forma errada: tem de ter impulsos originariamente bons para depois pervertê-los. Mas, se é mau, não pode fornecer a si mesmo nem as coisas boas e desejáveis nem os bons impulsos passíveis de perversão. [6]

Lewis, ainda acrescenta que:

Para que seja mau, esse poder tem de existir e ter inteligência e vontade. Ora, a existência, a inteligência e a vontade são, em si mesmas, coisas boas. […] o Mal é um parasita, não um ente original. [7]

Contudo, não foi Lewis quem primeiro concebeu a ideia do mal como corrupção, na verdade, essa ideia nasce com Santo Agostinho. Em suas confissões, como resposta a seita Maniqueísta da qual fez parte durante sua juventude, Santo Agostinho chega a seguinte conclusão a respeito do que seria o mal:

Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E se não fossem boas nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo que se corrompe sofre diminuição de bem. [8]sant_agostino_di_canterbury

Frente a isso, voltamos para O Silmarillion, onde podemos observar um eco da Teologia de Lewis e Agostinho quanto o mal na Sub-criação de Tolkien. Tolkien narra o seguinte:

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música à de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. [9]

Vemos nesse trecho da narrativa, os aspectos levantados por Lewis e Santo Agostinho a respeito do mal como corrupção, principalmente no momento onde a canção de Melkor destoa da canção original de Ilúvatar e corrompe os outros Ainur que estavam ao seu redor, mostrando que realmente existe um diálogo de ideias. Em uma de suas cartas, Tolkien explicita a ideia da corrupção em seu Imagiarium.

Sauron, é claro, não era “mau” em origem. Foi um “espírito” corrompido pelo Primeiro Senhor do Escuro (o Primeiro Rebelde subcriativo), Morgoth. [10]

Facilmente podemos notar a ideia agostiniana de mal como corrupção na obra de Tolkien, no entanto, alguns problemas a mais podem ser são levantados. Agostinho, como já observado, não atribuía ao mal uma forma física, mas aparentemente, Tolkien parece atribuir a Melkor a figura do mal, ou seja, seria Melkor o mal físico?

Em O Silmarillion, observa-se o seguinte:

Cresceu-lhe então muito mais a inveja; e ele também assumiu forma visível; mas, em virtude de seu ânimo e do rancor que nele ardia, essa forma era escura e terrível. E ele desceu sobre Arda com poder e majestade maiores do que os de qualquer outro Valar, como uma montanha que avançava sobre o mar e tem seu topo acima das nuvens, que é revestida de gelo e coroada de fumaça e fogo; e a luz dos olhos de Melkor era como uma chama que faz murchar com seu calor e perfura com uma frio mortal. [11]

Um pouco mais adiante, o autor escreve o seguinte:

Diz-se, porém, entre os eldar que os Valar sempre se esforçaram, apesar de Melkor, para governar a Terra e prepará-la para a chegada dos Primogênitos: e eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. [12]

Nestes trechos, nota-se uma diferença com a Teologia agostiniana e o que ainda não sabemos se é o pensamento de Tolkien, ou apenas parte da Teologia de sua Sub-criação. Percebemos que Melkor foi criado como todos os Ainur, mas que assim como entendia Santo Agostinho, por não ser totalmente bom, tinha a possibilidade, através do livre-arbítrio, de se corromper com desejos ruins, e foi o que aconteceu com Melkor, a ponto de o mesmo, como observado nos trechos acima, ter sua aparência alterada devido a estes desejos ruins e corruptíveis. Vemos também que o autor passa a atribuir a Melkor o ato de corromper: Contudo, devemos nos lembrar que antes de ele tomar uma “forma má” e passar a ser o agente de corrupção, ele foi antes corrompido, mas pelo fato de não nos ser informado em nenhuma parte d’O Silmarillion e nem em qualquer outra obra de Tolkien de um “mal pré-Melkor”, ficamos com as seguintes perguntas: seria Melkor realmente uma forma física do mal? Se sim, essa ideia de um mal com forma física seria parte da teologia de Tolkien ou apenas parte de sua Sub-criação?

Outro problema nos é apresentado em O Silmarillion, causando-nos algumas dúvidas semelhantes as que acabei de apresentar. Tolkien diz o seguinte:

Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. [14]

Estaria Tolkien nos dizendo que existia uma “morte pré-queda? Vemos nesse trecho que a morte, ao invés de ser um fruto de uma queda, como acredita a Tradição Cristã, seria na verdade um dom corrompido, mas tudo isso na Teologia interna da sub-criação de Tolkien. Contudo, em um nota feita em uma de suas cartas, Tolkien faz algumas considerações interessantes sobre isso:

Visto que a “mortalidade” é assim representada como uma dádiva especial de Deus [15] à segunda Raça dos Filhos (os Eruhíni, os Filhos do Deus Único) e não como uma punição por uma Queda, o senhor pode chamar isso de “má teologia”. Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas. [16]

Tolkien confirma que essa ideia é realmente presente em sua obra e o mesmo se refere a ela como uma má teologia no mundo primário, mas perfeitamente possível em sua Sub-criação por se tratar apenas de um mundo que reflete a realidade, mas que não é a realidade em si. Como dizia Tolkien em alguns ensaios e cartas, esse mundo contém apenas a essência da verdade mas não o verdadeiro. Mas o que levanta hipóteses de isto ser parte da Teologia pessoal de Tolkien são as últimas linhas: “Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas.”

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Em seu ensaio, Sobre Contos de Fadas, Tolkien elabora a ideia de Faërie, o mundo encantado das fadas, onde as coisas lá existentes são reflexos da realidade, embora como já dissemos, não é a realidade em si, e portanto, não são necessariamente mentiras, mas “verdades em potencial”.

A história muitas vezes se parece com o “Mito”, porque ambos, em última análise, compõem-se da mesma matéria. Se de fato Ingeld e Freawaru jamais viveram, ou pelo menos jamais amaram, então em última análise eles obtêm sua história de um homem e uma mulher anônimos, ou melhor, entraram na história deles. [17]

Michael White, em sua biografia de Tolkien, acrescenta o seguinte sobre a teoria de Tolkien sobre histórias de fadas: “Mitos, (…) com certeza não são mentiras. Mitos derivam de um núcleo verdadeiro e carregam consigo um significado cultural muito específico” [18]. Ou seja, se um conto de fadas reflete uma verdade, logo certos pontos dessa Sub-criação são, se levarmos em conta a teoria de Tolkien, verdade. Sendo assim, afirmar que a ideia de uma morte pré-queda e de que a morte haveria tido seu entendimento corrompido com a queda e se tornado algo ruim é razoável não só na Teologia do mundo Sub-criativo de Tolkien, como provavelmente também faz parte de sua Teologia pessoal, assim como parte da teodiceia aqui encontrada, justamente por dialogar com o “mundo primário”, assim como Tolkien pressupõe que um mito deve fazer.

Por fim, gostaria de deixar claro que isso não é a palavra final dizendo: “Foi isso que Tolkien quis passar SIM!” ou “Essa é sim a ‘Teologia Tolkieniana'”. Como já afirmei no início, isso é apenas parte de uma pesquisa maior que está em andamento. A real intenção desse breve artigo foi apenas incentivar amantes de Tolkien e de fantasia em geral, a ler com um olhar mais crítico e atencioso para perceber que a Literatura tem muito para nos ensinar.

Referências e notas:

[1] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 151.

[2] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 242.

[3] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 3.

[4] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 142

[5] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4.

[6] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 59.

[7] ______. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 60.

[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 191.

[9] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4-5.

[10] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 183.

[11] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[12] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[13] Idem.

[14] Ibdem, p. 37.

[15] Em suas cartas, Tolkien se refere a Erú Ilúvatar, o deus soberano de sua Sub-criação apenas como Deus, as vezes também como LORD, Lord, ou até mesmo “Ele”.

[16] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 182.

[17] TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo. WMF Martins Fontes. 2014. p. 29.

[18] WHITE, Michael. J. R. R. Tolkien; o senhor da fantasia. Rio de Janeiro. Darkside. 2013. p. 131.

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Sobre a culpa ser nossa

Recentemente, o caso da garota estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro chocou o Brasil de uma forma curiosa, pois, como já tem se tornado costume, levantaram-se duas bandeiras: aqueles que defendem a bandeira “contra a cultura de estupro” e os que defendem que a vítima estava no lugar errado, na hora errada e com a roupa errada. Minha intenção aqui não é falar a respeito do caso em si, mas como existem duas bandeiras que no meu ver são extremamente infelizes, gostaria, como já fiz em outros textos meus, de colocar a minha opinião sobre isso.

Achamos estranho esses casos absurdos como o da menina estuprada por 30 homens e insistimos em jogar a culpa somente nos estupradores. No entanto, a culpa não é única e exclusivamente deles. A culpa é nossa! Uma sociedade extremamente sexualizada e relativista em várias questões, principalmente em questões morais, com toda certeza do mundo não irá produzir indivíduos semelhantes aos ursinhos carinhosos. Nossa sociedade se alimenta de sexo diariamente nos programas e comerciais de televisão, na internet, nos filmes, nas músicas, nas roupas e até mesmo na repressão excessiva e sem explicação de lideres e movimentos religiosos quanto a sexualidade. Com toda essa atenção voltada para o sexo, o que mais nós deveríamos esperar? Nossa sociedade tem criado muitos ídolos e um deles é o sexo, pois vivemos, matamos e morremos por ele e esse ídolo só será destruído, quando percebermos que o construímos pois estamos doentes! NOSSA SOCIEDADE ESTÁ DOENTE!

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C. S. Lewis, em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, aborda está questão da sexualidade de uma forma, ao meu ver fantástica [1]. Ele usa como exemplo a facilidade que é reunir um grupo de pessoas para um “show” de strip-tease, onde uma mulher ou um homem vai aos poucos se despindo com um certo clima de suspense, com uma luz baixa e uma música de fundo, para no fim, todos ficarem babando de desejo por um ser humano nu na frente deles. Gostando você ou não disso, é uma situação um tanto normal para a nossa sociedade, pois facilmente encontra-se um clube de strip-tease, filmes sobre o assunto ou que contenham alguma cena do tipo. Mas se fôssemos em algum país onde no lugar de um ser humano, existisse um prato com uma tampa por cima e alguém fosse lá e tirasse essa tampa bem lentamente, com um clima exatamente igual do que acabei de descrever, mas que no final, ao retirar a tampa, você se deparasse com um pedaço de bacon. A única conclusão minimamente racional a se chegar com esse strip-tease gastronômico, é que as pessoas que estavam assistindo isso, estavam com os desejos descontrolados e extremamente famintos. Contudo, como ressalta o autor, os homens famintos pensam muito em comida, mas os glutões também. Em seu livro, Os Quatro Amores, Lewis complementa dizendo o seguinte:

É uma expressão extremamente infeliz dizer que um homem lascivo perambulando pelas ruas “quer uma mulher”. Estritamente falando, uma mulher é exatamente o que ele não quer. Ele que um prazer para o qual o instrumento necessário por acaso é uma mulher. O quanto ele se importa com a mulher enquanto tal pode ser medido por sua atitude em relação a ela cinco minutos depois da fruição (não se guarda o maço vazio depois de fumar os cigarros). [2]

Estamos cada vez mais apaixonados por sensações e não por aquilo que causa as sensações. Parafraseando Chesterton, nos apaixonamos pela poesia e não pela inspiração da poesias, as pessoas. Adoramos comer, mas não nos importamos muito com comida; adoramos ouvir música, mas não nos importamos muito com música; adoramos ler, mas não nos importamos muito com literatura; adoramos sexo, mas não nos importamos nada com as pessoas. Hoje em dia, se tornou mais proveitoso amar oxxx subjetivo, as sensações, os prazeres. O interessante é que tudo isso já estava denunciado em um livro que todos fizeram questão de esquecer. Embora muitos artista, filósofos e teólogos tenham tentado voltar os olhares das pessoas para esse ele, não demos atenção para eles, igual fizemos com o personagem principal desse livro. Em Gênesis 3, este livro nos mostra o começo deste problema, nossa Catástrofe, e nos evangelhos vemos a encarnação da solução, nossa Eucatástrofe.

Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem ‘ido de mal a pior’ ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o ‘duro espírito da concupiscência’ vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu. [3]

Nossa sociedade ignorou a doutrina da Queda, que segundo Chesterton [4], é a única doutrina cristã que pode verdadeiramente ser provada e em contra partida, se agarrou nas ideias de homens como Rousseau, Hobbes, Marx e outros, que acreditavam que o homem nasce bom, mas é corrompido pela sociedade. Os homens preferiram se agarrar no otimismo utópico das filosofias modernas a continuarem presos ao pessimismo esperançoso e realista do cristianismo. As pessoas insistem em dizer que o homem é bom e que todos esses problemas podem ser resolvidos e um dia chegaremos a uma sociedade perfeita, ignorando que a maldade está presa ao homem como um parasita. O filósofo, Luiz Felipe Pondé, em seu livro, Crítica e Profecia – a filosofia da religião em Dostoievisk, diz o seguinte:

O mal faz parte da condição ontológica do ser humano: para onde quer que vá, a partir da sua razão materialista moderna, arrastará o mal consigo. [5]

Um passo muito bom, para começarmos a tentar resolver alguma coisa em nossa sociedade, seria pararmos de terceirizar a culpa. O culpado de um estupro é o estuprador, mas os culpados pelo estuprador somos nós. O culpado por um roubo é o ladrão, mas os culpados pelo ladrão somos nós. Primeiro, deixamos de acreditar que o homem é mal, depois, passamos a amar mais a sensação do desejo, do que o objeto de desejo, e por fim, chegamos onde estamos. Novamente em seu livro, Os Quatro Amores, Lewis diz que o prazer elevado ao extremo, destrói tanto quanto o sofrimento [6]. Embora Lewis estivesse falando em uma esfera pessoal, podemos facilmente trazer essa situação para o coletivo de uma sociedade e dizer que estamos passando pelos problemas que estamos passando, pois nós não só elevamos o prazer ao extremo, como ainda continuamos a fazê-lo incansavelmente. 

É quando as coisas naturais mais parecem divinas que mais se aproximam do demoníaco. [7]

Os prazeres em si não são um problema, o problema é quando eles ocupam um lugar que não os pertence. Assim como no Salmo 115, críamos ídolos segundo nossas vontades e nos tornamos exatamente iguais a eles. O grande problema – por um lado, podemos até encarar como uma solução – é que, como já disse C. S. Lewis em seu livro, A Anatomia de uma Dor, é Deus o grande iconoclasta [8] e um dia, todos esses ídolos serão destruídos.

Pois conhecemos aquele que disse: “A mim pertence a vingança; eu retribuirei”; e outra vez: “O Senhor julgará o seu povo”. Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo! [9]

Uma sociedade livre é o que buscamos, mas não sabemos dizer ao certo do que queremos liberta-la, pois cada indivíduo diz uma coisa. O problema é que nessa bagunça libertamos o que nunca deveria ser livre, libertamos a moral e a verdade, pois agora a verdade é relativa a uma esfera de liberdade pessoal do indivíduo e a moral é construída igualmente de uma forma pessoal onde você é livre para ser o que quiser. A caixa de Pandora foi aberta, agora, que vivamos o caos até o dia onde o criador e consumador de todas as coisas volte para dar um fim em tudo isso. Ainda devemos ser sal da terra e luz do mundo, como diz o Evangelho segundo São Mateus no capítulo 5, nos versículos de 13 à 14, pois somos os reflexo do Reino de Deus aqui na terra, mas isso não significa que consertaremos tudo. Nossa esperança não está em homens e nem nesta terra, mas em Cristo e na Eternidade.

Referências:

[1] “É fácil juntar uma grande platéia para um espetáculo de strip-tease – para ver uma garota se despir no palco. Agora suponha que você vá a um país em que os teatros lotassem para assistir a outro tipo de espetáculo: o de um prato coberto cuja tampa fosse retirada lentamente, de modo que, logo antes do apagar das luzes, se revelasse seu conteúdo – uma costeleta de carneiro ou uma bela fatia de bacon. Você não julgaria haver algo errado com o apetite desse povo por comida? Será que, em contrapartida, uma pessoa criada em outro ambiente também não julgaria errado o instinto sexual entre nós?” LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. pág. 127. 2014.

[2] ______. Os Quatro Amores. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. pág. 131. 2013.

[3] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte & Letra Editora. pág. 51. 2006.

[4] “Certos novos teólogos questionam o pecado original, que constitui a única parte da teologia cristã que pode realmente ser provada.” CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão. pág. 27. 2008

[5] PONDÉ, Luiz Felipe. Crítica e Profecia; a filofsofia da religião em Dostoievisk. São Paulo. Ed. 34. pág. 132. 2003.

[6] “O prazer, levado ao extremo, nos destrói tanto quanto o sofrimento.” LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. pág. 142. 2013.

[7] Idem.

[8] ______. A Anatomia de uma Dor; um luto em observação. São Paulo. Ed. Vida. pág. 82. 2013.

[9] Hebreus 10:30, 31

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Sobre a Providência Divina em O Cavalo e seu Menino

Obs: O texto a seguir, é a adaptação resumida de um projeto em andamento, previsto para ser publicado no final do primeiro semestre de 2017.

Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia, na Idade do Ouro, quando Pedro era o Grande Rei de Nárnia e seu irmão também era rei, e rainhas suas irmãs.” Assim, se inicia, O Cavalo e seu Menino, que pessoalmente, considero o melhor dos sete livros da série do célebre escritor, C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia. Nárnia, como já é de conhecimento de muitos, é uma série de histórias que contém alegorias da vida cristã. Embora, conforme a história foi crescendo, graças a influência de seu amigo J. R. R. Tolkien, podemos dizer que essas alegorias foram amadurecendo. Não que Lewis fosse imaturo para escrever tais histórias, mas apenas que em nível de profundidade, as histórias foram crescendo.

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Aqui, pretendo analisar alguns trechos de O Cavalo e seu Menino, terceiro livro em ordem cronológica de As Crônicas de Nárnia, mas o quinto a ser lançado em 1954, com o fim de explicitar a doutrina da Providência Divina na obra. Providência Divina, resumidamente, seria a atuação de Deus na história, com o fim de fazer com que ela siga o rumo que Ele quer. Como disse Santo Agostinho em, O Livre-Arbítrio: “(…) é a Providência que dirige o Universo.” [1]

Por providência entendemos a ação contínua de Deus pela qual ele preserva a existência da criação que ele fez surgir e a dirige para os propósitos que designou para ela. [2]

Em seu livro, Confissões, Santo Agostinho deixa claro a Providência de Deus agindo durante diversos acontecimentos de sua vida, onde ele diz estar sendo dirigido pelo que ele chama apenas de Providência. Tolkien, em algumas de suas cartas, chega até mesmo a atribuir a Providência como uma personagem implícita em suas obras, principalmente em O Hobbit e na trilogia O Senhor dos Anéis. Lewis, assim como Tolkien, era abertamente um leitor de Santo Agostinho e nitidamente influenciado por seu pensamento, traz essa ideia de providência para O Cavalo e seu Menino.

– Não acho que você seja um desgraçado – disse a grande voz.

– Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

– Só há um leão – respondeu a voz.

– Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite…

– Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.

– Como sabe disso?

– Eu sou o leão. [3]

Neste trecho, Shasta está falando com algo grande que ele ainda não soube identificar o que é. Depois de uma curta conversa, Shasta conta suas aventuras para esse “algo”, e diz o quão ele se acha um desgraçado depois de tudo o que aconteceu com ele até aquele momento. Aquilo que gerou tanto desconforto e até um certo sofrimento em Shasta, estava diante dele, se apresentando, como o próprio Lewis descreve mais a frente, como algo “belo e ao mesmo tempo terrível”, semelhante a ideia do Numinoso de Rudolf Otto, o Mysterium Tremendum et Fascinans.

É interessante vermos esse diálogo da Providência Divina, com aquilo que podemos chamar de mal pedagógico, ou seja, o ato de Deus causar alguma espécie de sofrimento em seus filhos, para que estes fiquem da forma como Ele quer, assim como vemos em Hebreus 12:6, 7. Em seu livro, O Problema do Sofrimento, Lewis desenvolve um pouco essa ideia, chegando a afirmar que Deus pode causar sofrimento nos homens, com o fim de estes ficarem inteiramente amáveis [4], ou, como ilustra em seu livro, Os Quatro Amores: “(…) a Igreja não tem beleza alguma exceto a que o Esposo lhe confere: ele não a percebe amável, mas a torna amável.” [5] Dessa forma, ressaltando a ideia de que aquele que ama, no caso Deus, pode e fará “mudanças”, para que o objeto de seu amor se torne completamente amável. Chesterton, por fim, acrescenta o seguinte:

Há a grande lição de “A Bela e a Fera”, dizendo que uma criatura precisa ser amada antes de ser amável. [6]

Durante O Cavalo e seu Menino, vemos que Shasta vai evoluindo após cada dificuldade enfrentada. Vemos ele no começo da história, apenas um garotinho assutado, aos poucos se tornar uma personagem corajosa, como por exemplo, após passar uma noite na casa dos mortos com um gato, sendo assustado por chacais, ou então, quando ele vai correndo até o Rei Luna. Estes acontecimentos, por si só, já renderiam uma boa análise da jornada do herói, mas analisando com as lentes da Teologia Cristã, podemos perceber a Doutrina da Providência saltando aos nossos olhos.

– Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite o acolhesse. [7]

Shasta está cercado por todas as partes pelo grande Leão que estava cuidando dele mesmo nas horasaravis mais difíceis. E nos momentos em que ele achava que tudo estava mal, era por que na verdade, sua jornada ainda não havia chegado ao fim, pois, para usar do pensamento um pouco das ideias de Tolkien, Shasta ainda estava passando pela sua Catástrofe, portanto, ele estava caminhando para Eucatástrofe, seu final feliz. Shasta, assim como muitos de nós, estava olhando apenas uma parte do quadro e dizendo ser um pintura horrível, ao invés de esperar o artista terminar sua obra. Em seu livro, O Homem Eterno, Chesterton diz a mesma coisa, embora em outro contexto, mas ilustrando perfeitamente o que quero dizer:

Como todos os livros que nunca escrevi, [este] é de longe o melhor livro que jamais escrevi. […] Fala de um garoto cuja fazenda ou chalé ficava em uma dessas encostas e que encetou suas viagens para descobrir alguma coisa algo como a efígie e o túmulo de algum gigante; e, quando ele já estava muito longe de casa, olhava para trás e via que sua própria fazenda e horta, luzindo achatadas na encosta como as cores e cantões de um escudo, não eram senão partes de uma figura gigantesca sobre a qual ele sempre vivera, mas que era grande demais e estava próxima demais para ser vista. [8]

A Providência se assemelha a paisagem que este garoto viu, pois não à perceberemos logo de início, é necessário tempo para entendermos as situações e podermos ver a Providência Divina atuando. Da mesma forma, só percebemos a Providência em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis quando terminamos a história e olhamos para trás e percebemos que se a Providência não tivesse feito Bilbo sentir piedade de Gollum em O Hobbit ao invés de matá-lo, e se Frodo não tivesse igualmente tido compaixão de Gollum e protegido-o, Gollum não teria destruído o Um Anel, e  Terra-média não teria o final que conhecemos. Assim também, Shasta apenas entendeu a ação de Aslan em sua história, no momento em que Aslan se apresentou a ele e o mostrou a história novamente, só que dessa vez por uma outra perspectiva.

Preservação é Deus mantendo a existência de sua criação. Isso envolve a proteção de sua criação, evitando danos e destruição, e sua provisão para as necessidades dos elementos ou dos membros da criação. [9]

Lewis, novamente em seu livro, O Problema do Sofrimento, nos mostra que a moral de Deus é diferente da nossa em alguns aspectos, mas não totalmente diferente como o preto é diferente do branco, mas, como o próprio autor disse, diferente assim como o círculo desenhado por uma criança é diferente de um círculo perfeito [10].  E acredito que a Providência Divina, muitas vezes se da nessas situações, onde a nossa moral difere da de Deus.

Shasta, depois de se deparar com o Grande Leão que criou Nárnia e descobrir que, assim como Santo Agostinho, ele foi sustentado pela Providência Divina desde que nasceu, ele poderia facilmente declarar assim como Santo Agostinho: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora.” [11]. Talvez, seja por isso que Lewis tenha escrito O Cavalo e seu Menino, como a única história das Crônicas de Nárnia que não tem a travessia do nosso mundo para Nárnia. Shasta não precisava passar do nosso mundo para o outro, como fizeram os irmãos Pevensie, para se descobrir parte de Nárnia, porque ele já nasceu um Narniano.

Desde as primeiras palavras dessa história, já nos deparamos com a providência atuando sutilmente, mas, como já disse, só fará sentido quando chegarmos no final da jornada e olharmos a história novamente.

Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia [12]

Referências:

[1] AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. São Paulo. Ed. Paulus.1995. p. 25.

[2] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 169.

[3] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[4] “[…] o amor pode causar sofrimento ao objeto desse amor, mas apenas na suposição de que ele deve sofrer alterações para tornar-se inteiramente amável.” ______. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 65.

[5] ______. Os Quatro Amores. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2013. p. 146.

[6] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão. 2008. p. 83.

[7] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[8] CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno. São Paulo. Ed. Ecclesiae. 2014. p. 9.

[9] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 170.

[10] “A ‘bondade divina’ difere da nossa, mas não é absolutamente diversa: ela difere da nossa não como o branco do preto, mas como o círculo perfeito se distingue da primeira tentativa de uma criança em desenhar uma roda: quando a criança aprender a desenhar, ela saberá que o círculo que agora consegue fazer é justamente aquele que estava tentando fazer desde o começo.” LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 47.

[11] AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 299.

[12] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 193.

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Sobre Educação, Limites e Cosmovisão

Com os atuais acontecimentos do nosso país, diversos temas tem sido levantados com o fim de trazer solução para alguns problemas. Um desses temas, é a questão da educação e de sua importância. Constantemente me deparo com alguém reclamando que a educação no nosso país é absurdamente ruim, mas dificilmente eu vejo alguém dizendo o que está ruim e como pode melhorar. Bom, nesse texto pretendo dar os meus motivos do porque entendo que nossa educação está ruim e como podemos ajudar a melhora-la.

Podemos observar, que o desenvolvimento do super-ego, ou super-eu, como é mais comumente referido por alguns teóricos, interfere quase que diretamente no desenvolvimento do indivíduo. O super-eu é o que vai gerar a noção de limites de uma pessoa, como por exemplo, onde começa as minhas vontades e as vontades do próximo; onde se inicia o meu “mundo particular” e onde eu começo a interferir no “mundo particular” do próximo; etc. O limite é de extrema importância para que possa existir um ser humano saudável e é justamente ai que começa o problema ao meu ver. Não nos foi ensinado limites para nada.

Ao meu ver, a educação se divide em dois polos, que por sua vez se dividem em duas áreas, que seriam, educação e instrução, casa e escola – ou Igreja. Onde a educação, no sentido moral, seria fornecida pela família, ou pela Igreja em conjunto com a família; já a instrução seria fornecida pela escola, onde baseado na educação recebida em casa, o indivíduo tomaria suas próprias decisões. Podemos ver, no entanto, que isso não acontece, pois existe uma sobrecarga nos ombros das Escolas e Igrejas, onde as famílias que deveriam educar, estão terceirizando este trabalho, juntamente com o dever de instruir, para Escolas, Igrejas e em casos mais extremos, mas não menos comuns, para televisões e video-games. Os limites que deveriam ser estabelecidos, foram estabelecidos de forma que não faz diferença eles existirem ou não. Limitamos a educação para aqueles que teoricamente seriam os responsáveis pela educação. O dever de cuidar e educar não é mais dos pais, mas das instituições.

O motivo dessa desestruturação do super-eu do indivíduo moderno, se da por ele não saber estabelecer seus limites e não o tê-los estabelecidos na infância pela família, graças a essa terceirização já mencionada. Só que mais do que a falta de limites na educação pessoal, esse problema se da também no abandono da religiosidade e na quebra com instituições, onde cada vez mais os homens vivem uma “religiosidade liquida”, não estabelecendo limites ao que é certo ou errado, mas aderindo tudo como certo, afinal, “todos os caminhos levam a Deus”. Destruímos os conceitos morais e absolutos e resolvemos abraçar o pensamento secular moderno de que não existem certezas e nem verdades, pois é tudo uma questão de opinião. Ou seja, destruímos os limites e agora vivemos nesses caos.

Quando um sistema religioso é estilhaçado (como foi estilhaçado o cristianismo na Reforma), não são apenas os vícios que são liberados. Os vícios são, de fato, liberados, e eles circulam e causam dano. Mas as virtudes também são liberadas; e as virtudes circulam muito mais loucamente, e elas causam um dano mais terrível. [1]

Se olharmos pelo viés da cosmovisão cristã, veremos que esse problema pode ser resolvido tendo como base os ensinamentos cristãos, não no sentido de catequizar as pessoas, mas dos cristãos colocarem em prática os ensinamentos que alegam aderir. Todo esse problema, encontraria uma luz para uma possível solução, naquilo que historicamente é chamado de Cristianismo. O Cristianismo é uma cosmovisão completa que aborda todas as áreas da vida do indivíduo e da sociedade, portanto, deve ser útil até pelos que não professam essa fé. Afinal, por mais que de certa forma seja uma religião seleta, ainda assim é uma religião para “judeus e gentios”. Ou seja, é uma religião que visa o bem de todos, desde exercer a justiça até exercer a caridade.

Francis A. Schaeffer, em seu livro, A Morte da Razão, disse o seguinte:

Hoje temos um ponto fraco no nosso sistema educacional, na falha em entender a associação natural entre as disciplinas. Tendemos a estudar todas as disciplinas isoladamente, como linhas paralelas que jamais se tocam. Isto tende a valer tanto para a educação cristã quanto para a secular. Está é uma das razões porque os cristãos evangélicos têm sido pegos de surpresa pelas tremendas mudanças que acontecem em nossa geração. Temos estudado a exegese pela exegese, a teologia pela teologia, a filosofia pela filosofia; estudamos algo sobre arte enquanto arte, estudamos algo sobre a música enquanto música, sem entender que estas coisas são relativas ao homem, e as coisas relativas ao homem não estão sobre linhas paralelas que nunca se tocam [2]

Schaeffer nos mostra que os limites necessários para o desenvolvimento do ser humano foram colocados nos lugares errados e isso dificulta nossa relação com as pessoas. Muito embora Schaeffer estivesse em um contexto diferente do nosso em sua época, ainda assim sofremos dos mesmos problemas. Ouso dizer que muitos dos nossos problemas, se iniciaram, ou pelo menos se intensificaram nessa mesma época.

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Abraham Kuyper, desenvolveu o conceito de soberania de esferas, onde o mesmo, baseado nas teorias politicas de João Calvino, diz que cada esfera da sociedade – e consequentemente do indivíduo – tem um dever soberano e é soberano sobre si mesmo, tendo uma relação, digamos, apenas “dialogal”, com as outras esferas. Kuyper defende, por exemplo, que a Igreja tem um dever que foi imposto soberanamente por Deus à ela e esse dever é somente dela e de mais ninguém, mas ela pode atuar em um diálogo com outras esferas, como por exemplo o Estado, mas os deveres da Igreja ainda são soberanos da Igreja e não do Estado e vice e versa. 

De uma perspectiva Calvinista, entendemos, então, que a família, as empresas, a ciência, a arte, etc. são todas esfera sociais que não devem sua existência ao Estado e que não derivam sua lei de vida da superioridade do Estado, mas que obedecem a uma autoridade superior interna à sua área; uma autoridade que governa [internamente a elas], pela graça de Deus, tal como o Estado o faz [internamente à sua própria esfera]. [3]

Kuyper nos mostra que de um perspectiva cristã, conseguimos estabelecer os limites necessários para diversas áreas da sociedade. Ou seja, o cristianismo tem a possibilidade de fornecer respostas, não só para a área da educação – cristã e secular – mas para a sociedade como um todo. Schaeffer também nos mostra isso. O Cristianismo reconhece o estado de queda do homem, e portanto, reconhece que se há para onde cair, há igualmente para onde subir. Sendo assim, reconhecemos que existe uma redenção e ela existe através de Deus, que em Cristo nos redimiu.

O homem, por inteiro, foi feito por Deus; agora, porém, ele encontra-se caído por inteiro, incluindo o seu intelecto e vontade. Somente Deus é autônomo. [4]

O Cristianismo nos apresenta conceitos extremamente necessários para que possamos entender nossos limites e para que possamos, assim como já disse Kuyper, entender que não existe uma única área sequer de toda a existência humana, que Cristo que é soberano sobre tudo não diga: É meu![5] Enquanto cristãos, devemos entender que nossa vida religiosa não deve se limitar apenas há uma esfera de religiosidade pessoal ou eclesiástica. Fomos chamados, segundo os relatos do Evangelho de São Mateus 5:13, 14, para sermos Sal da Terra e Luz do Mundo, mas jogar sal no saleiro e acender um vela em uma sala iluminada, ao meu ver não faz muito sentido.

Os cristãos perderam os seus limites! Não sabemos mais onde termina a hipocrisia e onde começa a santidade. Vivemos uma vida maravilhosa dentro das Igrejas e quando estamos rodeados de amigos cristãos, mas nos esquecemos que continuamos a ser cristãos durante os outros dias. Não entenda que estou dizendo que devemos sair evangelizando e empurrando a Bíblia garganta a baixo das pessoas, mas se somos realmente cristãos, deveríamos ser reconhecidos por isso mesmo sem abrirmos a boca. Deveríamos ser atuantes e relevantes na sociedade e não somente na Igreja. Infelizmente, vivemos tempos em que os que mais precisam de Cristo, são os próprios cristãos.

Schaeffer, novamente em seu livro, A Morte da Razão, nos um da exemplo da eficácia da mensagem cristã na transformação do homem. Nós sabemos quem o homem é, sabemos como ele está e sabemos também como ele deve ficar, portanto, devemos fazer a nossa parte para ajudarmos o homem. Ainda que todo o trabalho seja de Deus, de alguma forma paradoxal, ainda devemos fazer a nossa parte.

Há alguns anos, eu estava palestrando em Santa Barbara, e fui apresentado a um rapaz que esteve envolvido com drogas. […] Ele veio ouvir a minha palestra e disse: “Isso tudo é novo; nunca ouvi nada semelhante antes na minha vida”. Então, ele compareceu novamente na tarde seguinte e eu o cumprimentei. Ele olhou nos meus olhos e disse: “Senhor, foi um cumprimento bonito. Porque você me cumprimentou daquele jeito?” Respondi, dizendo: “É porque eu sei quem você é – eu sei que você foi feito à imagem de Deus”. Tivemos então uma conversa tremenda. Jamais estaremos em condições de tratar as pessoas como seres humanos, de atribuir a elas o mais alto nível de humanidade verdadeira, a menos que realmente conheçamos a sua origem – quem essas pessoas são. Deus diz ao homem quem ele é. Deus nos diz que ele Criou o homem à sua imagem. Portanto o homem é algo maravilhoso [6]

Somos frutos de uma geração que negligenciou limites e sofre essas consequências, mas que, infelizmente, estamos seguindo os mesmo passos. Muitos dizem que se definir é se limitar, como se o limite fosse algo ruim. Graças a essa “libertação” das tradições, abrimos a caixa de Pandora e libertamos o caos. Procuramos a fonte dos nossos problemas, mas isso só acontecera quando os regenerados pelo sangue de Cristo forem o reflexo do Cristo Ressurrecto para a sociedade, e através dEle, a sociedade perceber que o problema somos nós. O inferno nunca foram os outros, somos nós mesmos.

Referências:

[1] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão. 2008. p.52.

[2] SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. São Paulo: Ed. Cultura Cristã. 2002. p. 24.

[3] MOUW, Richard J. Abraham Kuyper: A Short and Personal Introduction. Grand Rapids:Eerdmans, 2011, p. 51 in: DOOYEWEERD, Herman. Estado e Soberanisa: Ensaios Sobre Cristianismo e Política. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2014. p. 20.

[4] SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. São Paulo: Ed. Cultura Cristã. 2002. p. 32.

[5] KUYPER, Abraham. Sphere Sovereignty. In: BRATT, James. Abraham Kuyper, a centennial reader. Grand Rapids: Eerdmans, 1998, p. 488 in: RAMOS, Leonardo; CAMARGO, Marcel; AMORIM, Rodolfo. Fé Cristã e Cultura Contemporânea: Cosmovisão Cristã, Igreja Local e Transformação Integral. Minas Gerais: Ed. Ultimato, 2009. p. 57

[6] SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. São Paulo: Ed. Cultura Cristã. 2002. p. 33-4.

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